Barreiro do Século Passado

A INAUGURAÇÃO E OS PRIMEIROS TEMPOS

É um Barreiro de vinhedos e olivais, pequenas fazendas e grandes quintas, de terras arenosas e pobres, extensas praias fluviais de areia dourada e um rio generoso que os primeiros construtores do Caminho de Ferro vêm encontrar em 1854/55.
Pequena vila de “belas vinhas, pomares e terras de pão”, segundo um cronista coevo, de pouco mais de quatro mil habitantes (4543, no recenseamento de 1864), virada a norte para o rio Tejo de águas calmas e de profundos esteiros navegáveis, onde subsiste uma importante comunidade piscatória. Nela tinham sido instalados, no início do século XIX, importantes moinhos de vento, sustentando, juntamente com os pré-existentes moinhos de maré, uma significativa actividade moageira que, com a extracção de sal das salinas, constituem a proto-industrialização na margem esquerda.
O Barreiro é, nesse tempo, local de passagem entre o Sul e o Norte, por isso não espanta a escolha feita pela monarquia para a implantação do início terminal da Linha do Sul e Sueste, de ligação ao Alentejo, e mais tarde ao Algarve. Por aqui se vão escoar, vindos das regiões vizinhas, ou do Alentejo profundo: vinhos, madeiras, trigo, gado, peixe, sal, mel e cera, carvão, cortiça, etc., para a grande metrópole, do outro lado do Tejo, mas é a instalação, em 1861, das Oficinas dos Caminhos de Ferro, e de uma comunidade ferroviária imigrante, que inicia verdadeiramente a história industrial e operária do Barreiro moderno. Operários qualificados, técnicos experientes, trazem conhecimentos profissionais e hábitos associativos e culturais, fixam-se na urbe, que vai ganhando nova dimensão humana e social, consequente do novo tipo de relações de produção emergente, com os obreiros vivendo exclusivamente do seu salário.
Os autóctones, pescadores, salineiros, assalariados agrícolas (nas grandes quintas) e pequenos agricultores, sofrem a miscigenação, assimilando as novidades e transformando-se também em operários industriais, quando decrescem as actividades tradicionais. Novos impactos serão trazidos pela indústria corticeira a partir de 1865.
Por tudo isto, a comunidade barreirense sofrerá acentuadas transformações na segunda metade do século XIX, à medida que aumenta o número de residentes (serão 5436, em 1890 e 7844, em 1900) progridem o espírito associativo (fundação de colectividades a mais antiga a Sociedade Filarmónica, em 1840), se acentua o espírito sindical e de classe (criação da Associação dos Corticeiros, em 1890) e o espírito mutualista (Caixa de Socorros Mútuos em 1883).
O primeiro troço da linha do Sul, ligando o Barreiro a Vendas Novas, na extensão de 56 Km, foi inaugurado pelo rei D. Pedro V, em 1859, no meio de grandes manifestações de regozijo, embora a abertura ao tráfego só se realizasse em 1861. Era certamente o maior evento jamais vivido na vila desde o tempo em que reis e fidalgos demandavam a margem esquerda para veranear ou fugir a cercos e epidemias.
Alguns autores locais assinalam a transcendência do acontecimento e das excepcionais perspectivas abertas ao progresso da comunidade, como fez José Augusto Pimenta (JAP), na sua monografia de 1886, afirmando entusiasmado: “A abertura do caminho-de-ferro foi para esta povoação, o braço vigoroso do atleta que veio rasgar o véu de tristeza e miséria que a envolvia.”
Nesse ano, segundo JAP, estavam recenseados no Barreiro, os seguintes estabelecimentos industriais:
– 3 Fábricas a vapor (uma de massas e duas de moagem)
– 4 Fábricas de cortiça
– 2 Cordoaria
– 2 Estaleiros de construção naval
– 3 Fomos de cal
Para além das “excepcionais” Oficinas dos Caminhos de Ferro, envolvendo 500 postos de trabalho.
A filosofia fontista de expansão ferroviária para recuperar o atraso em relação à Europa, consubstancia-se no alargamento da linha do Sul e Sueste, que em 1861 chega a Setúbal, com a abertura do troço de 13 km a partir do Pinhal Novo, em 1863 chega a Évora e à fronteira espanhola, e em 1864 chega a Beja. A partir 1869 o Estado tem de assumir conclusão da rede do Sul e Sueste, por desinteresse das entidades privadas nacionais e estrangeiras.
Mas o trânsito de mercadorias e de pessoas do comboio para o vapor que passa o Tejo faz-se penosamente num transbordo de quase dois quilómetros. Manifesta-se então o espírito empreendedor do engenheiro Miguel Paes, de formação militar e ao serviço da Companhia Real, responsável pelo projecto e concretização das obras de construção da Gare Marítima, em terrenos conquistados ao rio, inaugurada em 1884. Estavam finalmente criadas as condições para a vila ribeirinha ser a grande plataforma giratória dos produtos e pessoas oriundos do Alentejo, e, mais tarde, do Algarve, com a expansão até Faro da Linha do Sul, em 1889, e tornar-se na próspera urbe por que ambicionavam os profetas barreirenses.
O progresso material e a elevação do nível de vida das classes trabalhadoras são um factor de avanço de todos os restantes sectores da vida económica e social da comunidade. Tal como constituem a base fundamental para o aparecimento de formas de organização colectiva preocupadas com o recreio e a cultura (formação de 5 colectividades no concelho: Filarmónica Barreirense, em 1840,  SFAL Lavradiense, Penicheiros em 1867 e Franceses, em 1870), ou outras formas mais avançadas, interessadas na defesa das condições de trabalho e dos direitos dos trabalhadores (criação das Associações de Classe, precedendo os futuros Sindicatos).
A primeira a ser constituída é, como referimos, a Associação de Classe dos Corticeiros, em 1890, seguida da Associação de Classe Metalúrgica e Artes Anexas, em 1903, formada essencialmente por operários ferroviários.
No que mais particularmente a estes concerne, são assinaláveis a constituição, em 1894, da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste, e, em 1896, a criação do Armazém de Consumo, no âmbito da Caixa de Socorros Mútuos Caminho Ferro, também a primeira do género a ser criada.
No rodar do século, é assinalável o prolongamento da rede até Vila Real de St°. António, em 1906. Mas os factos mais relevantes têm a ver com a organização da classe ferroviária, enquadrada na Associação dos Metalúrgicos, já referida, avançando para formas de luta só possíveis pela elevação da consciência política. Em 1910, antes da implantação da República, os homens das ferrovias do Sul fazem greve de solidariedade com os operários corticeiros em luta contra a exportação da cortiça sem ser trabalhada.
Curiosa esta greve dos corticeiros, com o apoio dos descarregadores de mar e terra, e com o beneplácito de alguns patrões, todos de acordo em que a exportação de cortiça em bruto privava os portugueses das mais-valias da sua transformação. Os corticeiros lutavam também. Por melhores retribuições, num sector de grande. Precariedade e baixas remunerações. É certamente por isso a classe mais aguerrida no dealbar do século XX, e, porventura, a melhor organizada.
O fim do antigo regime e a implantação da República em 5 de Outubro de 1910, assinalada entusiasticamente pelos ferroviários com uma paralisação total, e pelos barreirenses, em particular, com o hasteamento da bandeira na Câmara Municipal logo a 4 de Outubro, trouxe uma nova e extraordinária dinâmica ao movimento operário no Barreiro, fortalecido entretanto em números absolutos, como mostra o aumento, em percentagem, da população activa na Indústria Transformadora (29%, em 1890, 30% em 1900 e 44%, em 1911).

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″

PARTE 2