Novas leituras para antigas lutas


Revista Brasileira de História – Associação Nacional de História

Novas leituras para antigas lutas: representatividade e organização coletiva entre trabalhadores do ABC Paulista – 1964/1990

RESUMO:

O artigo procura mostrar como os trabalhadores da região do ABC Paulista, apesar da situação de extrema adversidade imposta pela ditadura militar, que perseguiu violentamente as lideranças e transformou as entidades representativas em meros órgãos assistencialistas, reagem a essa situação retomando a capacidade de luta e de organização coletiva. Discute também a aproximação ocorrida entre diferentes correntes da esquerda local como condição para o enfrentamento do regime militar, e chama a atenção para o fato de que as dificuldades criadas por esse mesmo regime forçaram um redimensionamento nas estratégias de intervenção social desses trabalhadores, dando origem à defesa de uma participação direta das bases nos processos decisórios e suplantando as tradicionais teses cupulistas. Conclui mostrando a importância dessas novas formulações no processo de criação e organização do PT e da CUT.

[PDF] http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=26303713 – Rev. bras. Hist., Set 1999, vol.19, no.37, p.279-309. ISSN  >> Autor: Antônio de Almeida

Depoimento do Pe. JOSÉ MAHON – padre operário nas “Indústrias Villares” em São Bernardo do Campo. Apoiou os movimentos de esquerda e a resistência à ditadura militar no Brasil (movimentos de jovens operários e grupos de esquerda e de resistência no ABC. Foi preso sete vezes, no 1º e 6º distrito por apoiar greves de trabalhadores).
Pe. José Mahon, nasceu no dia 8-11-1926 em Roubaíx, região Nord-Pas-de-Calais, França. Em 1939, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, mudou-se para o sul de França. Depois, para o Brasil, Portugal (Barreiro) e voltou ao Brasil em 2006. Religioso da congregação ‘Filhos da Caridade’, cujo pai lutou contra os alemães na 1ª Guerra Mundial e os irmãos lutaram contra o nazismo na 2ª Guerra Mundial.
 

Igreja Católica e Estado

Igreja Católica e Estado. Leigos e Sacerdotes diante do golpe de 1964.

Através da pesquisa de mestrado intitulada “A Ação Social Católica e a Luta Operária: a experiência dos jovens operários católicos em Santo André (1954-1964)” analisei as relações que os militantes da Juventude Operária Católica (JOC) estabeleceram com a hierarquia da Igreja Católica do ABC (SP), ao qual estavam submetidos, e com as outras organizações da classe operária com as quais se relacionavam …

Maria Blassioli Moraes
Pós-graduanda DH – FFLCH/USP

O depoimento do padre operário francês José Mahon (11), membro do Instituto Filhos da Caridade, demonstrou que não apoiou a realização do movimento militar e, segundo este, já durante o governo do Marechal Humberto Castelo Branco observaram a recessão que decaiu sobre os trabalhadores.
… houve então a ditadura militar, no começo, é como agora, no começo achavam que podia ser bom, vamos ver, vamos deixar passar um tempo, teve aquela campanha ouro para o bem do Brasil, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ai muita gente, eu, pessoalmente, quando vi esta revolução militar de 31 de março, eu já fui contra na primeira hora, nunca acreditei que podia dar alguma coisa boa para o Brasil, mas muita gente deu chance a revolução, ao Castelo Branco e veio em 65 uma onda de desemprego muito grande e D. Jorge fez uma carta aberta a Castelo Branco que foi publicada nos jornais daquela época, onde ele tomava parte claramente contra toda esta política dos militares, tanto a Ação Católica Operária, como JOC tiveram vários padres que começaram a se manifestar a favor do povo sofrido e contra essa revolução que suprime o direito de greve, que dava o arrocho salarial, ai veio as condições de moradia, ninguém mais podia comprar um terreno e pagar um aluguél, a não ser realmente que seja um bom profissional e teve vários manifestos, vários panfletos distribuídos escondidos para manifestar que a Igreja não se conformava com essa situação e essa atitude política do governo militar que estava tomando conta do país e naquela época também, em 64, nós resolvemos tentar uma experiência de trabalho em fábrica com os operários, nós estávamos em três porque chegou mais um depois, o Padre Roberto, e nós três fomos trabalhar em fábrica, então nós íamos trabalhar e eu fui o primeiro, eu trabalhei de fresador na Villares, indústrias Villares, na Senador Vergueiro, em São Bernardo do Campo, e trabalhei em 64 e foi muito positivo porque os operários estranhavam a presença de um padre, mas gostavam e depois tinham muita liberdade comigo e, inicialmente, trabalhava só à noite, trabalhava das 21:15 às 6:30 da manhã, então eu fiquei, trabalhava à noite e dormia de dia. (12)
Padre Mahon destacou importantes movimentos organizados por setores conservadores da Igreja, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que foram responsáveis por disseminar a percepção de que toda a Igreja brasileira estava a favor do movimento militar. Entretanto, em seguida ressaltou sua posição contrária ao golpe e afirmou que o próprio Bispo, autoridade máxima na Igreja do ABC, não tardou em declarar publicamente suas críticas ao novo governo. O Padre justificou sua oposição em decorrência da situação econômica enfrentada pela população da região do ABC.

Fonte: Maria Blassioli Moraes, em Leigos e sacerdotes…

A ASC e a Luta Operária

A Ação Social Católica e a Luta Operária:
a experiência dos jovens operários católicos em Santo André
(1954-1964)

Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção de grau de Mestre em História, Curso de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo.

Orientador: Prof. Dr. Augustin Wernet

São Paulo 2003
Maria Blassioli Moraes
Pós-graduanda DH – FFLCH/USP

[PDF] Maria Blassioli Moraes A Ação Social Católica e a Luta Operária: a …
www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-19102004…/tde1.pdf
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Procuramos analisar e discutir a prática de ação e de luta de um grupo de …… O padre operário francês, José Mahon, que chegou ao Brasil no ano de 1961, …

 

Uma História uma Vocação 5

PADRE ALFREDINHO SINAL DA CARIDADE DE DEUS – PARTE 5
O PADRE ALFREDINHO

Em 1968 chegou do Canadá o padre Alfredinho, religioso Filho da Caridade e trazia em sua bagagem a vontade de viver no meio dos mais pobres. Ele pensava em residir na favela dos alagados em Salvador (Bahia), mas o arcebispo não concordou, e mudando de ares, ele foi aprender a língua portuguesa em Crateús onde dom Fragoso, bispo diocesano, o acolheu. Passado alguns meses, a amizade com Dom Fragoso se intensificou, a ponto do padre Alfredinho resolver ficar em Crateús.

Fredy Kunz (padre Alfredinho) realizou um trabalho apostólico muito profundo nos bairros mais pobres, no meio da prostituição, nas frentes de trabalho, e enfrentou as críticas dos militares naquela época de repressão. O religioso conseguiu que o povo de Crateús fosse acolher com carinho os grupos de camponeses que, deixando as suas terras por causa da seca, vinham à cidade com a intenção de saquear os supermercados: estas pessoas necessitadas foram acolhidas nas casas do povoado como verdadeiros irmãos. As famílias abriam as suas portas aos famintos e surgia o PAF (Porta Aberta aos Famintos). Padre Alfredinho criou na Barra do Vento um centro de retiros, foi chamado para animar retiros de sacerdotes e religiosas, tinha um jeito de viver tão simples e evangélico que se tornou uma figura muito conhecida no Brasil. Fundou a Irmandade do Servo Sofredor (ISSO) que se espalhou em muitos estados do Brasil e muitos países do mundo. Em 1989 veio para Santo André, viveu no meio dos pobres em baixo de viadutos e na favela Lamartine, situada na região da paróquia São Geraldo. Nesta favela, ele animou a comunidade Nossa Senhora Aparecida, no coração da favela. Como todo ser humano, a idade comprometia a sua saúde, mesmo alimentando-se bem (arroz, feijão, sopa, legumes, chá, café, suco natural). A sua saúde estava muito precária e, após uma longa doença, faleceu em Santo André no dia 11 de agosto de 2000. Padre Alfredinho escreveu vários livros, entre eles o mais conhecido: “A burrinha de Balaão” e a vida dele foi biografada por Michel Bavarel, e dentre muitos testemunhos de vida não podemos esquecer a sua resistência contra grupos capitalistas que se enriquecem, vendendo produtos nocivos à saúde de nossa população (por exemplo, padre Alfredinho não tomava qualquer refrigerante fabricado pela multinacional Coca Cola).

Padre Alfredinho e todos que estiveram e atuam na Irmandade do Servo sofredor escreveram e escrevem uma bonita história, marcada pela espiritualidade do Servo Sofredor (Is. 42ss), o grupo dos sete, os encontros e retiros, e como diz a dona Ricarda “Eu quero ser o que sou, nada mais daquilo que sou”. Nós continuamos seguindo com nosso carisma, mas que fique registrado: “Os exemplos de santidade acontecem em nossas periferias”.

CONCLUSÃO

É difícil concluir porque a caminhada continua: 50 anos é pouco, pensando que a nossa igreja já tem mais de 2.000 anos! Mas nosso desejo é ser fiel ao carisma de nosso fundador o padre Anizan: ”Olhando o povo, Jesus viu tantas ovelhas sem pastor e teve compaixão.”

O mundo operário evoluiu nestes 50 anos: profissionais altamente qualificados, outros trabalhando em firmas terceirizadas com pouca garantia para o futuro, cresce o número dos que vivem na rua, o número de jovens que caem nas drogas aumenta sensivelmente, separações nas famílias prejudicam a educação das crianças, a degradação do meio ambiente…

Diante de novos problemas devemos encontrar novas respostas. Por isso tentamos ser criativos, e somos guiados pelo Espírito Santo, Dom de Deus. O campo é grande, o trabalho apostólico nunca vai faltar e por isso:

“Ó DEUS DAÍ À VOSSA IGREJA SANTOS PASTORES
PARA QUE OS POBRES CONHEÇAM O VOSSO AMOR”.
“Peçamos ao dono da messe
que mande operários para a sua messe.”

Fonte: Livreto comemorativo dos 50 Anos dos Filhos da Caridade no Brasil
 

Uma História uma Vocação 4

OS PADRES NO MEIO DOS TRABALHADORES – PARTE 4
PADRES-OPERÁRIOS

Era década de 60 e estávamos em três padres. Fato marcante em nossa Igreja Católica deve-se à capacidade de pensar e ser criativos na evangelização, e com este dom os três religiosos tentaram realizar um sonho: um dos três sacerdotes iria trabalhar na fábrica, e conhecendo a realidade da massa trabalhadora, partilharia entre os Filhos da Caridade no Brasil, a vida e o suor dos que lutam para sustentar a família. Guiado por este desejo e convicção, o padre José Mahon foi contratado em 1964 (época da revolução de 31 de março) pelas “Indústrias Villares” em São Bernardo do Campo. Depois foi a vez de Pedro Jordanne trabalhar na “Nordon” (fábrica metalúrgica em Utinga – Santo André) em 1965 e 1966, e Roberto Du Lattay em 1967 era admitido na empresa “Irmãos Vassoler” na Avenida Industrial em Santo André, contudo, percebemos que era quase impossível atender bem os paroquianos, formar militantes e trabalhar em fábrica.

Em nossa equipe de religiosos chegaram os Filhos de Caridade, Bernardo Hervy e Carlos Tosar, este ordenado sacerdote em julho de 1969 e trabalhador na “ZF” (São Caetano) e “Firestone” (Santo André) por vários anos. Bernard Hervy, também padre-operário, trabalhou como torneiro mecânico, na “Vidrobras”, na “União dos refinadores”, e depois, em Santo André, passando por diversas fábricas, e ligado mais intensamente a um trabalho sindical, na época em que a classe operária do ABC sofria com a ditadura militar.

Na década de 70, chega o padre Ivo Rannou, Filho da Caridade, trabalhador da construção civil no ABC, como pedreiro, e durante vários anos acompanhou a JOC do ABC, como assistente. Outro FC que veio viver conosco era um padre que esperava o visto para entrar em Cuba, mas, sem resposta, passou alguns anos conosco. Seu nome era João Pedro Borderon e trabalhou como eletricista na Philips, até receber o visto esperado.

PARTE 5

Uma História uma Vocação 3

TERRA DE SANTA CRUZ ESCOLHIDO POR DEUS – PARTE 3
POR QUE O BRASIL FOI ESCOLHIDO?

Em 1961, um dos responsáveis da Congregação: o padre Joseph Bouchaud resolveu vir ao Brasil para estudar as possibilidades da implantação de nossa congregação religiosa. Ele chegou à Manaus no dia 29 de junho na festa de São Pedro e prosseguiu viagem: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador e, em cada lugar os padres respondiam a Joseph Bouchaud: “A sua missão só pode ser em São Paulo: é a região de grande crescimento industrial”.

Após conhecer o Rio de Janeiro, Joseph Bouchaud chega a São Paulo e marca uma entrevista em Santo André com Dom Jorge Marcos de Oliveira (primeiro bispo diocesano de Santo André). O Superior dos Filhos da Caridade explicou o motivo da visita e Dom Jorge exclamou: ”É Deus que te envia: minha diocese cresce muito, tem cada vez mais fábricas, mais famílias que vêm de todo lugar: Nordeste, Bahia, Minas e não tenho padres para atender o povo nosso que é muito religioso: venham na minha diocese que os acolherei de braços abertos: precisávamos de padres com este carisma: servir os trabalhadores”.

Ao final de julho, o padre José Bouchaud volta à França e pede a um padre que acabava de mudar de paróquia para que ele viesse ao Brasil para estudar as possibilidades e foi assim que o padre João Le Berre veio morar em Santo André, ajudando Monsenhor Cavalcante na paróquia de São Judas Tadeu. Em conversa com Dom Jorge, foi decidido que os primeiros padres que chegassem, atuariam na paróquia de Santa Terezinha no bairro de Utinga, porque o padre que atendia nesta paróquia iria voltar à Itália.

E foi assim que a Congregação mandou os dois primeiros padres: Pedro Jourdanne e José Mahon, que desembarcaram em São Paulo no dia 1º de dezembro de 1961.

Os religiosos foram acolhidos por um frei dominicano “João Batista” que tinha montado uma fábrica comunitária de móveis no bairro de Ipiranga, situada à Rua Vergueiro. Com a chegada dos religiosos franceses surge a primeira necessidade: aprender a falar português, tarefa nada fácil, mas uma religiosa idosa do colégio de Sião em São Paulo (irmã Nímia) se prontificou em ensinar a língua portuguesa aos 2 padres que chegavam.

PARTE 4

Uma História uma Vocação 2

FILHOS DA CARIDADE 50 ANOS – PARTE 2
INTRODUÇÃO

Os primeiros Filhos da Caridade fazem o noviciado e começam o seu apostolado na região de Paris. Aos poucos aparecem jovens interessados em viver este carisma e, com o passar dos anos, os Filhos da Caridade passam a assumir outras paróquias em Paris e no interior. O mundo operário começa a se organizar: sindicatos, Juventude Operária Cristã, e outros movimentos.

Em 1936, na França, a Frente Popular consegue várias vantagens: o salário mínimo, 15 dias de férias pagas por ano, mas a exploração ainda continua forte. Presentes nas lutas operárias, mas ainda mais preocupados em evangelizar, os Filhos da Caridade já passam o número de 100. A segunda guerra Mundial traz grandes dificuldades, mas também novas esperanças porque os padres, ao voltarem da guerra, percebem que a evangelização não pode continuar com o sistema antigo: os padres devem viver mais perto do povo. Assim nascem os padres-operários por volta de 1947 (a guerra terminou em 1945).
As vocações tornam-se mais numerosas: com mais de cento e cinqüenta filhos da Caridade novas paróquias estão sendo assumidas em várias regiões da França, do norte ao sul. Os anos passam e a evangelização dos pobres e trabalhadores empolga cada vez mais um bom número de jovens.

A INTERNACIONALIZAÇÃO

O mundo estava mudando e ficava cada vez mais claro que a classe operária crescia em todas as grandes cidades do mundo. Alguns se perguntam: ”Por que não atender os apelos da classe operária fora da França?” Com esta indagação, as bases da internacionalização de nossa congregação religiosa surgem. Os responsáveis de nosso Governo Geral estudam as possibilidades: na América do Norte, em terras canadenses já existem Filhos da Caridade. Então, por que não enviar religiosos em terras africanas e no contexto sul-americano? Estas argumentações ganharam força e em 1961, decide-se o envio dos primeiros religiosos ao Brasil: “Era hora de atravessarmos o oceano”, não apenas fisicamente, mas também espiritualmente.

Era o Gênese (origem) da grande aventura da “internacionalização” do Instituto. Atualmente estamos no Brasil, Colômbia, México, Cuba, Canadá, Costa de Marfim, República Popular do Congo, República Democrática do Congo, Filipinas, Espanha, Portugal e França.

Estamos presentes em doze países, cada qual com suas particularidades e nestas páginas desejamos partilhar a realidade brasileira, “O Florão da América” que nos acolhe há 50 anos. São muitas histórias, riquíssimas experiências e tudo isto aconteceu, porque dissemos sim à “Evangelização dos Pobres e Trabalhadores”.

1961-2011: 50 anos da presença dos Filhos da Caridade no Brasil: meio século, com muitas histórias: é um pouco uma “História Santa” embora teve sempre altos e baixos pois tudo o que é humano tem falhas.

PARTE 3

Uma História uma Vocação 1

FILHOS DA CARIDADE 50 ANOS – PARTE 1


APRESENTAÇÃO

Na 2ª metade do século XIX, a industrialização se espalha na Europa: aparecem as primeiras fábricas, os primeiros trens, o início do progresso. Com estas indústrias surge a necessidade de mão de obra. A classe operária está se formando, contudo a exploração dos trabalhadores é muito grande: salários baixos, horas trabalhadas cada vez mais numerosas, saúde dos operários deficiente: tuberculose, anemia, verminoses e outras. O mundo do trabalho parece um imenso rebanho de pobres escravizados. Nasce a Internacional Socialista de pensamento marxista A Igreja nunca se deparou com tal problema e fica sem ação. Qual será o futuro deste povo abandonado? Alguns cristãos começam a perceber a gravidade da situação: Albert de Mum, Frederico Ozanam: porém, são poucos. É neste contexto que um jovem sacerdote, Emílio Anizan nascido em 06 de janeiro de 1853 numa aldeia a 70 km no sul de Paris, faz a ligação entre esta situação e a atitude de Jesus diante do povo da Galileia quando Ele ficava comovido por tantas “ovelhas sem pastor”. O padre Anizan conhece muitos bairros pobres de Paris e entra em contato com este povo trabalhador: seu coração não pode aceitar tal situação: como Jesus, ele tem “compaixão deste povo” ainda mais porque a maior parte não sabe que é amado por Deus. Conhecendo os pobres de sua época e observando que muitos deles não tinham acesso aos sacramentos, por causa da conjuntura social, com os efeitos da revolução industrial (neste período, os trabalhadores tinham uma jornada diária de 14 a 16 horas de trabalho) Padre Anizan, pede para entrar nos Irmãos de São Vicente de Paulo, devido à proximidade destes religiosos com o povo simples e trabalhador. Primeiramente atuando como missionário, depois será eleito Superior Geral da Congregação dos Irmãos de São Vicente de Paulo. Com o passar dos anos, visitando estas famílias ele reúne grupos de trabalhadores. Estava preocupado com a vida deles. Em 1891 o papa Leão XIII escreve uma carta ao povo cristão (chamada do título em latim “Rerum Novarum” denunciando a triste situação dos operários. O padre Anizan aproxima-se dos mais sofridos, contudo, ele será duramente criticado pelas elites e inclusive por setores de dentro da Igreja. Padre Anizan é acusado de “modernismo social” (expressão da época que pode corresponder a nossa palavra: ”comunista”). O padre Anizan foi deposto de seu cargo de Superior Geral e proibido de exercer o seu ministério sacerdotal em Paris. Ele se oferece como capelão militar voluntário atuando no meio dos soldados em agosto de 1914 (início da 1ª guerra mundial). Dentro do coração dele surge um grande desejo: “Se tivesse padres totalmente consagrados a este povo, imitando Jesus Bom Pastor”? A idéia torna-se projeto e quando o Papa Bento XV assume a responsabilidade da Igreja Católica, padre Anizan resolve ir à Roma expor o seu sonho. Não somente o Papa aprova, mas incentiva-o e escolhe o nome da futura Congregação: “Filhos da Caridade” – “Filhos do Deus-Amor”. E assim nasce a Congregação “Filhos da Caridade” no dia de Natal de 1918, logo após o término da guerra. Surge na Igreja uma nova família religiosa consagrada à evangelização do mundo do trabalho.

PARTE 2

Revista Brasileira de História

Novas leituras para antigas lutas: representatividade e organização coletiva entre trabalhadores do ABC Paulista – 1964/1990
Antônio de Almeida
Universidade Federal de Uberlândia

RESUMO
O artigo procura mostrar como os trabalhadores da região do ABC Paulista, apesar da situação de extrema adversidade imposta pela ditadura militar, que perseguiu violentamente as lideranças e transformou as entidades representativas em meros órgãos assistencialistas, reagem a essa situação retomando a capacidade de luta e de organização coletiva. Discute também a aproximação ocorrida entre diferentes correntes da esquerda local como condição para o enfrentamento do regime militar, e chama a atenção para o fato de que as dificuldades criadas por esse mesmo regime forçaram um redimensionamento nas estratégias de intervenção social desses trabalhadores, dando origem à defesa de uma participação direta das bases nos processos decisórios e suplantando as tradicionais teses cupulistas. Conclui mostrando a importância dessas novas formulações no processo de criação e organização do PT e da CUT.
Por vezes, essas reuniões ocorriam no meio do mato, com esquemas de segurança montados para alertar os participantes em caso de algum imprevisto. Noutros momentos, elas aconteciam em lugares pouco suspeitos e os disfarces utilizados por seus integrantes eram um mecanismo para não chamar a atenção.

… vivenciadas por Padre José Mahon, um dos padres operários da região que na época …
… No Jardim Zaira, por exemplo, um dos bairros pobres da periferia de Mauá, várias mulheres dos movimentos comunitários foram presas e torturadas, permanecendo na cadeia por vários dias e, conseqüentemente, perdendo os seus empregos3.
… Uma vez eu entro numa sala da igreja e vejo uns quinze a vinte homens(…) estudando a bíblia. Eu só conhecia uns dois ou três. Depois que eu soube que eles estavam fazendo uma reunião clandestina e todos tinham a bíblia aberta porque se alguém entrasse de repente, alegariam que estavam estudando a bíblia. Eu era vigário da paróquia mas não queria saber o que estava acontecendo porque se um dia eu fosse preso e torturado eu podia falar. Agora não sabendo das coisas, tudo bem19.

Fonte: Rev. bras. Hist. vol.19 n.37 São Paulo Sept. 1999

60 anos servindo aos mais humildes

Padre José Mahon é um dos padres jubilares da Diocese de Santo André em 2011. E para celebrar a graça de chegar a 60 anos de sacerdócio, no domingo, 22 de maio, às 8h da manhã, na Igreja São Geraldo Magella, na Vila Guaraciaba, em Santo André, foi celebrada a Missa para agradecer a Deus por tantas graças que recebeu e que lhe permitiu ajudar, principalmente os mais humildes.

Mais de quinhentos paroquianos ali estiveram para participar da missa em ação de graças que foi presidida pelo Bispo Emérito de São Paulo, Dom Angélico Bernardino Sândalo, um amigo de quatro décadas, e que estiveram juntos em muitas das caminhadas em defesa das pessoas mais simples.

Padre Mahon foi ordenado há seis décadas na igreja São Vicente de Paula, no subúrbio de Paris, mas desde 1942 trazia no coração o ideal de ser um sacerdote de Jesus Cristo. Após dois anos no Seminário de Filosofia em sua diocese, decidiu entrar para a Congregação dos Filhos da Caridade, cujo carisma é a evangelização dos trabalhadores, e de todas as pessoas marginalizadas pela sociedade.

A primeira paróquia onde pastoreou em nossa Diocese foi a Santa Terezinha, de Santo André, depois peregrinou por Mauá, e por anos ficou na Paróquia São Geraldo Magella. Em Santo André também passou pelo Parque João Ramalho. E depois se tornou um missionário em Portugal. Retornando à Diocese serviu no Ferrazópolis, em São Bernardo, Rio Grande da Serra. Esteve também em Guarulhos e anos atrás esteve em missão na África.

Para festejar os 50 anos dos Filhos da Caridade no Brasil foi lançada uma camiseta com os dizeres: “É preciso pessoas que amem a classe trabalhadora”.

Fontes: Sites da Diocese de Santo André e da Paróquia São Vicente de Paulo situado em Mauá – SP, em Brasil.