Varino Pestarola

Embarcações tradicionais do Tejo

As povoações ribeirinhas que constituem o concelho do Barreiro desenvolveram-se e progrediram através da sua forte ligação com o rio Tejo e Lisboa. Em toda a região do estuário do Tejo surgiram e evoluíram, desde a Idade Média, embarcações que procuraram responder às necessidades de transporte de pessoas e mercadorias dos quais se destacaram entre outras: o barco dos moios (transporte de sal), o bote de pinho (transporte de lenha), a muleta (pesca); a fragata, o batel, a falua e a canoa.

A partir da segunda metade do séc. XIX surge o varino, embarcação essencial de carga. Enverga um pano triangular latino num só mastro, e à proa uma pequena vela. Assegurava a circulação de bens (carvão, areia, cortiça, madeira, cereais, etc.) em toda a zona estuarina. Semelhante à fragata, distingue-se desta pela roda da proa bastante pronunciada, o fundo liso e sem quilha, o que lhe possibilitava navegar em águas pouco profundas.

Embarcação leve e airosa, apresenta uma decoração muito exuberante e de raiz popular. A proa é constituída geralmente, por um painel de cores garridas, em que contrastam o amarelo, o azul, o branco ou vermelho, sobre um fundo negro. Destacam-se os grandes ramalhetes e cercaduras de flores, onde sobressai a denominação da embarcação, executada com esmero. O seu interior é igualmente decorado, à volta da amurada, na escotilha do porão ou nas molduras e bandeiras das portas.

A origem do varino Pestarola ainda hoje é uma incógnita. No início dos anos 30 encontrava-se em Alhandra, nos mouchões do Tejo, com a designação de Camponês, possivelmente ao serviço da Companhia das Lezírias. Em 1946 é adquirido pelos Armazéns José Luís da Costa, sociedade de armadores e secagem de bacalhau, instalados em Palhais, para realizar o transbordo do pescado para a fábrica. Em 1999, a Câmara Municipal do Barreiro adquire o varino Pestarola com vista à salvaguarda e preservação do património cultural e ambiental. Assim, a recuperação e o restauro desta embarcação tradicional do Tejo, integra-se nas políticas da Autarquia em resgatar antigos saberes artesanais, ligados à construção naval em madeira, e em transmitir técnicas tradicionais de navegação à vela.

FonteCâmara Municipal do Barreiro

Muleta ou Bote de Arrastar

Curiosidades históricas:
A muleta, ou bote de arrastar, e o varino

A muleta, também chamada bote de arrastar, usava as redes de tartaranha e pescava até fora da barra, entre o cabo da Roca e o cabo Espichel. A beleza e a elegância desta embarcação eram-lhe dadas pelo uso das seguintes velas: varredouras à ré; moletim à proa; varredoura da vara, cojusteira, toldo da ponte e moletim de vara. A muleta tinha uma vela bastarda e o mastro curto e inclinado para vante e podia largar muitas e pequeninas velas servindo-se de umas vergônteas lançadas para diante pela proa e pela popa, dando-lhe regular andamento com ventos bonançosos. O seu casco tinha considerável largura a meio comprimento, e a proa era de forma arredondada e curva; na popa, pendia-lhe um grande leme, tendo mais no flanco larga pá que lhe aguentava a inclinação quando mergulhada por barlavento.

Estas embarcações, típicas dos pescadores do Seixal e do Barreiro, vieram a morrer no Tejo no início deste século, apesar de Ramalho Ortigão já em 1876 chamar a atenção para o seu fim: “… e as elegantes muletas do Seixal, que infelizmente tendem a desaparecer da nossa baía.” Em sua substituição, usaram-se os “modernos batéis, que pescam pelo mesmo sistema”, conforme registava Baldaque da Silva em 1895. O batel do Seixal, ou bote da tartaranha, era de tipo misto, com casco de bote modificado e velame da muleta adaptado ao seu menor porte.

De entre as embarcações que asseguravam a circulação de bens em toda a área de Lisboa a partir da segunda metade do século XIX, destacaram-se os varinos de carga, contemporâneos do início da industrialização das margens do estuário do Tejo. Este tipo de embarcação, de proa redonda e fundo para poder navegar em águas pouco profundas dos esteiros, veio dar vida e cor ao vasto estuário do rio Tejo. O varino, adaptado a águas baixas, é uma embarcação leve, elegante e graciosa, possuindo uma decoração vistosa e florida, com o nome no painel de proa. A moldura, feita de rosas grandes, folhagem, rosáceas, vai de lado a lado, continuando de bombordo a estibordo para abranger todo o painel. O interior é igualmente decorado: à volta da amurada, no poço, ou escotilha do porão, nas molduras e nas bandeiras das portas. A decoração é opulenta e majestosa, arvorando um mastro onde larga um grande latino triangular, e à proa larga uma vela.

FonteSelecções do Reader’s Digest

Muleta do Barreiro

Em destaque

Embarcação de pesca utilizada pelos pescadores dos esteiros da margem sul do rio Tejo (Barreiro e Seixal), que atravessavam a barra para lançar redes entre o Cabo da Rocha e o Cabo Espichel.

No seu complexo jogo de panos, uma Muleta do Barreiro é retratada por João Vaz, artista adepto das fainas marítimas ao longo da costa portuguesa.

Muleta do Barreiro

É uma das embarcações mais complexas de Portugal e infelizmente nenhuma sobreviveu até aos nossos dias. É outra das nossas facetas icónicas na construção naval que um dia terá de ser reavivada, pois é uma embarcação do maior interesse técnico e visual.

A muleta de pesca, pela sua forma original pitoresca é certamente a embarcação regional portuguesa mais conhecida em todo o mundo. Era usada unicamente na arte da tarantanha, uma arte de arrasto pelo través. A muleta apresentava fundo largo e chato, proa dentada excessivamente boleada e popa inclinada.
O aparelho da muleta era composto por um mastro muito inclinado para vante, onde içava a verga, uma grande vela latina triangular e dois batelós (paus compridos) deitados pela popa e proa que serviam para amurar e caçar as outras velas e, ao mesmo tempo, para nas extremidades amarrarem os cabos que seguravam a rede da tarantanha.

Apesar da sua estranha aparência, a muleta é uma embarcação altamente equipada para a pesca. Emprega redes tanto à deriva como no arrasto e é perfeitamente adaptada ao seu trabalho.
A sua grande vela latina, num mastro inclinado para a proa (a parte da frente), e o resto do seu equipamento de velejar dão-lhe uma enorme propulsão.
Tem características pertencentes a três povos muito distanciados entre si no tempo e no espaço:
– A proa eriçada de pontas de ferro é idêntica à de uma “nave longa” normanda, couraçada, que se chamava jarnbardí.
– O olho pintado em vivas cores na proa é tradicionalmente mediterrânico.
– O casco em forma de cuba e as derivas laterais lembram o hektjalk oitocentistas dos Países Baixos.

Muleta de Pesca ou Muleta de Tartaranha

Muleta de Pesca ou Muleta de Tartaranha era uma embarcação possante, marcada por alguma agressividade estética, o que lhe conferia um aspecto algo bélico. O seu “emaranhado” de velas permitia fazer uso da força do vento para deslocar a embarcação lateralmente, desenvolvendo-se uma técnica de arrasto pelo través, fundamental para a actividade piscatória, muito utilizada pelos pescadores do Barreiro e do Seixal.

A sua silhueta agressiva e inconfundível marcou a paisagem fluvial do Tejo, durante mais de quatro séculos, tendo o século XX e os seus carrascos ditado a sua sentença de morte.
Conhecida pelo envergar de um notável velame, composto de 6 a 7 pequenas velas (toldos, muletins, varredouras e cozinheira) e uma enorme vela latina armada em bastarda, permitiam que, a Muleta, pescasse de través com artes de arrastar. Pescadores, carpinteiros, homens de mar desafiaram a física usando pequenas velas compensando as velas de ré, para que a embarcação se mantivesse atravessada enquanto arrastava.

«rocegando o fundo com uma rede de arrasto – a tartaranha – rebocada e ligada aos batelós – à proa e à popa descaindo com o vento, isto é, arrastando de lado».
in Revista da Armada

Fontes: JÚNIOR.TE.PTRevista da Armada, nº 48.1975 e Arte marítima, por António Fangueiro.

Vocação Marítima do Barreiro

Localizado na margem sul da Área Metropolitana de Lisboa, à beira Tejo, o concelho do Barreiro manteve, desde sempre, uma forte ligação às actividades ribeirinhas. O seu topónimo, desde logo, faz uma clara alusão ao local onde os primeiros “barreirenses”, pescadores oriundos do Algarve, exerciam a sua profissão: na barra do Porto de Lisboa.
A existência de infra-estruturas de produção como o Complexo Real de Vale de Zebro (sécs. XV a XIX), o Estaleiro Naval da Telha (finais do séc. XV) e o Forno Cerâmico da Mata da Machada (sécs. XV / XVI), constitui um testemunho da importância estratégica que o Barreiro deteve durante o período dos Descobrimentos Portugueses.

Gerido directamente pela Coroa, o Complexo Real de Vale de Zebro era constituído por 27 fornos de cozer biscoito, armazéns de trigo, cais de embarque e um moinho de maré de 8 moendas – o Moinho D’el Rei, o maior da região, além de vastas áreas de pinhal circundante. A sua instalação deve remontar ao reinado de D. Afonso V e era comparável a um outro existente em Lisboa, os Fornos da Porta da Cruz. Em conjunto, constituíam as duas unidades régias que asseguravam o fabrico de todo o biscoito necessário aos empreendimentos marítimos da expansão e dos Descobrimentos.
Ao nível local, o Complexo de Vale de Zebro influenciou positivamente Palhais, contribuindo para o seu desenvolvimento, atraindo uma elite de funcionários da Coroa, como Almoxarifes, Feitores, Escrivães, Mestres do Biscoito, Biscouteiros, etc.

Por outro lado, estas actividades exigiam grandes quantitativos de mão-de-obra. Nesse contexto, a Coroa recorreu à importação de escravos, empregues quer no Complexo Real, quer como escravos domésticos nas casas senhoriais. Em 1553, a quantidade de escravos era tal que existia na Igreja de Nª Sª da Graça uma «Confraria do Rosário dos Homens Pretos». Com o Terramoto de 1755, Vale de Zebro ficou praticamente destruído e todo o Complexo foi reedificado. São do período pombalino a fachada principal e as galerias de fornos no interior.
A Escola de Fuzileiros Navais, ali instalada desde 1961, consagrou uma parte do edifício ao Museu do Fuzileiro, onde apresenta uma colecção de objectos sobre a história e a evolução dos Fuzileiros em Portugal.

As actividades ligadas à construção naval, nas margens do Rio Coina, são tradicionalmente associadas à época da Expansão Portuguesa. Contudo, é de crer que, numa região onde abundava a madeira, tivessem anteriormente existido diversos estaleiros que asseguravam a construção das embarcações de pesca e de tráfego local.
A existência de um Arsenal de Marinha no lugar da Telha deve remontar ao século XV. Porém, é no século XVI e principalmente no século XVII – altura em que este estaleiro laborou activamente para a reconstrução da Marinha portuguesa, destruída após a queda da Invencível Armada – que ganha maior notoriedade.

Abrigada das tempestades de Inverno, a Feitoria da Telha, como também era designado este estaleiro, permitia a conclusão das embarcações, iniciadas no Verão na Ribeira das Naus de Lisboa, que, por estar muito exposta às invernias, impossibilitava a laboração nesta altura do ano. Das praias da Telha saíram muitos navios para as viagens dos Descobrimento e nos seus areais eram enterradas as madeiras, preparando-as assim para a construção naval. Actualmente, no local do antigo estaleiro funciona uma indústria de preparação de bacalhau, já centenária no concelho (1891), a Bensaúde SA.

O Forno de Cerâmica da Mata da Machada apresenta uma cronologia entre 1450 e 1530. Faz parte de uma olaria da qual apenas foi escavado um forno na década de 80 e situa-se em plena Mata Nacional da Machada. A sua localização explica-se pela grande abundância de lenha, combustível necessário ao funcionamento dos fornos, e pela existência de matéria-prima no local: a argila.
O espólio cerâmico proveniente da escavação desta olaria divide-se em duas grandes tipologias: louça de uso caseiro e peças de uso industrial.
Na primeira categoria integram-se as panelas, candeias, malgas, tigelas, escudelas, copos, pratos, caçoilas e peças de armazenamento de maiores dimensões como cântaros, alguidares, talhas e potes. Também se fabricavam telhas e tijolos para a construção.
A segunda categoria de peças é maioritariamente composta por um tipo de artefacto industrial: as Formas de Purga do Açúcar, ou “Pão de Açúcar”, a peça mais fabricada neste forno e destinada aos engenhos açucareiros insulares.
Nesta olaria foi descoberta ainda uma tipologia cerâmica, identificada na época como “forma de biscoito”, a qual serviria para fabrico deste produto nos fornos de Vale de Zebro. Em estudos recentes admite-se ter funções completamente distintas destas. As peças consistem em placas de barro de forma circular, com dimensões diversas. Tais artefactos constituiriam utensílios de olaria denominados “Pratos de Torno”, sobre os quais o oleiro fazia as peças e transportava-as para o local de seca, antes de entrarem no forno e serem cozidas.

Fonte: AML ESTUARIUM – NÚMERO 14, 2006.