Muleta ou Bote de Arrastar

Curiosidades históricas:
A muleta, ou bote de arrastar, e o varino

A muleta, também chamada bote de arrastar, usava as redes de tartaranha e pescava até fora da barra, entre o cabo da Roca e o cabo Espichel. A beleza e a elegância desta embarcação eram-lhe dadas pelo uso das seguintes velas: varredouras à ré; moletim à proa; varredoura da vara, cojusteira, toldo da ponte e moletim de vara. A muleta tinha uma vela bastarda e o mastro curto e inclinado para vante e podia largar muitas e pequeninas velas servindo-se de umas vergônteas lançadas para diante pela proa e pela popa, dando-lhe regular andamento com ventos bonançosos. O seu casco tinha considerável largura a meio comprimento, e a proa era de forma arredondada e curva; na popa, pendia-lhe um grande leme, tendo mais no flanco larga pá que lhe aguentava a inclinação quando mergulhada por barlavento.

Estas embarcações, típicas dos pescadores do Seixal e do Barreiro, vieram a morrer no Tejo no início deste século, apesar de Ramalho Ortigão já em 1876 chamar a atenção para o seu fim: “… e as elegantes muletas do Seixal, que infelizmente tendem a desaparecer da nossa baía.” Em sua substituição, usaram-se os “modernos batéis, que pescam pelo mesmo sistema”, conforme registava Baldaque da Silva em 1895. O batel do Seixal, ou bote da tartaranha, era de tipo misto, com casco de bote modificado e velame da muleta adaptado ao seu menor porte.

De entre as embarcações que asseguravam a circulação de bens em toda a área de Lisboa a partir da segunda metade do século XIX, destacaram-se os varinos de carga, contemporâneos do início da industrialização das margens do estuário do Tejo. Este tipo de embarcação, de proa redonda e fundo para poder navegar em águas pouco profundas dos esteiros, veio dar vida e cor ao vasto estuário do rio Tejo. O varino, adaptado a águas baixas, é uma embarcação leve, elegante e graciosa, possuindo uma decoração vistosa e florida, com o nome no painel de proa. A moldura, feita de rosas grandes, folhagem, rosáceas, vai de lado a lado, continuando de bombordo a estibordo para abranger todo o painel. O interior é igualmente decorado: à volta da amurada, no poço, ou escotilha do porão, nas molduras e nas bandeiras das portas. A decoração é opulenta e majestosa, arvorando um mastro onde larga um grande latino triangular, e à proa larga uma vela.

FonteSelecções do Reader’s Digest

Muleta do Barreiro

Em destaque

Embarcação de pesca utilizada pelos pescadores dos esteiros da margem sul do rio Tejo (Barreiro e Seixal), que atravessavam a barra para lançar redes entre o Cabo da Rocha e o Cabo Espichel.

No seu complexo jogo de panos, uma Muleta do Barreiro é retratada por João Vaz, artista adepto das fainas marítimas ao longo da costa portuguesa.

Muleta do Barreiro

É uma das embarcações mais complexas de Portugal e infelizmente nenhuma sobreviveu até aos nossos dias. É outra das nossas facetas icónicas na construção naval que um dia terá de ser reavivada, pois é uma embarcação do maior interesse técnico e visual.

A muleta de pesca, pela sua forma original pitoresca é certamente a embarcação regional portuguesa mais conhecida em todo o mundo. Era usada unicamente na arte da tarantanha, uma arte de arrasto pelo través. A muleta apresentava fundo largo e chato, proa dentada excessivamente boleada e popa inclinada.
O aparelho da muleta era composto por um mastro muito inclinado para vante, onde içava a verga, uma grande vela latina triangular e dois batelós (paus compridos) deitados pela popa e proa que serviam para amurar e caçar as outras velas e, ao mesmo tempo, para nas extremidades amarrarem os cabos que seguravam a rede da tarantanha.

Apesar da sua estranha aparência, a muleta é uma embarcação altamente equipada para a pesca. Emprega redes tanto à deriva como no arrasto e é perfeitamente adaptada ao seu trabalho.
A sua grande vela latina, num mastro inclinado para a proa (a parte da frente), e o resto do seu equipamento de velejar dão-lhe uma enorme propulsão.
Tem características pertencentes a três povos muito distanciados entre si no tempo e no espaço:
– A proa eriçada de pontas de ferro é idêntica à de uma “nave longa” normanda, couraçada, que se chamava jarnbardí.
– O olho pintado em vivas cores na proa é tradicionalmente mediterrânico.
– O casco em forma de cuba e as derivas laterais lembram o hektjalk oitocentistas dos Países Baixos.

Muleta de Pesca ou Muleta de Tartaranha

Muleta de Pesca ou Muleta de Tartaranha era uma embarcação possante, marcada por alguma agressividade estética, o que lhe conferia um aspecto algo bélico. O seu “emaranhado” de velas permitia fazer uso da força do vento para deslocar a embarcação lateralmente, desenvolvendo-se uma técnica de arrasto pelo través, fundamental para a actividade piscatória, muito utilizada pelos pescadores do Barreiro e do Seixal.

A sua silhueta agressiva e inconfundível marcou a paisagem fluvial do Tejo, durante mais de quatro séculos, tendo o século XX e os seus carrascos ditado a sua sentença de morte.
Conhecida pelo envergar de um notável velame, composto de 6 a 7 pequenas velas (toldos, muletins, varredouras e cozinheira) e uma enorme vela latina armada em bastarda, permitiam que, a Muleta, pescasse de través com artes de arrastar. Pescadores, carpinteiros, homens de mar desafiaram a física usando pequenas velas compensando as velas de ré, para que a embarcação se mantivesse atravessada enquanto arrastava.

«rocegando o fundo com uma rede de arrasto – a tartaranha – rebocada e ligada aos batelós – à proa e à popa descaindo com o vento, isto é, arrastando de lado».
in Revista da Armada

Fontes: JÚNIOR.TE.PTRevista da Armada, nº 48.1975 e Arte marítima, por António Fangueiro.

O rio Coina

O rio Coina (afluente da margem esquerda do rio Tejo) ou Ribeira de Coina nasce no Parque Natural da Arrábida, na povoação de Parral (na serra da Arrábida) e desagua, num esteiro com cerca de 6 km, junto ao Barreiro, a jusante de Coina (estuário do Tejo). No seu percurso de cerca de 25 km passa pela localidade de Quinta do Conde, onde recebe a Ribeira de Azeitão.

Antiga ponte sobre o rio Coina

O rio Coina foi desde sempre conhecido por ser um local eleito por aves e peixes para reprodução e berçário. Com a instalação de indústrias poluentes nas suas margens, o ecossistema esteve ameaçado de extinção, contudo, o encerramento das indústrias permitiu que muitas espécies que se julgavam desaparecidas para sempre voltassem a procurar o Sapal de Coina para se reproduzirem ou como pouso temporário para muitas aves migratórias como o flamingo, o alfaiate, o perna-longa, a garça e o pato-bravo, que aqui procuram alimento e abrigo. O Sapal é influenciado pelas marés, sendo formado por uma diversidade de canais anastomosados, de grande hidrodinamismo de marés, que alternam com pequenas elevações de substrato. Este biótopo encontra-se sobre a acção de diversos factores ambientais naturais, como os rápidos fluxos tidais, a constante erosão do substrato lodoso, que contem uma pequena granulometria, que fazem deste um habitat singular e selectivo

O rio de Coina foi um elemento natural importante no desenvolvimento da região, foi ainda associado à indústria naval, porque nas suas margens se construíram as embarcações da época da Expansão Portuguesa (caravelas e naus). As más condições de tempo no Inverno na Ribeira das Naus (em Lisboa), local onde se iniciava a construção, obrigava a que a conclusão das mesmas fosse feita no estaleiro da Feitoria da Telha. Era também nas areias das margens do rio Coina que se enterravam as madeiras – a zona era muito arborizada na época – destinadas à construção naval.

Nessa época o Rio Coina ainda era navegável, consta até que todos os dias saíam de Coina vários barcos carregados de hortaliças e frutas, como a uva Moscatel, com destino ao mercado de Lisboa. O rio era por vezes utilizado pela Rainha D. Constança, esposa de D. Pedro I, para viajar de barco para a sua residência em Azeitão.

O rio Tejo

Extensão da nascente até à foz: 1010 Km, dos quais 683 Km em Espanha, 280 Km em Portugal e 43 Km em comum.

O Tejo e seus afluentes

O rio Tejo nasce no Cerro de S. Filipe (Fuente Garcia, Serra de Albarracim, Província de Cuenca).
Desce ao planalto de Castelo-a-Velha, atravessa a Estremadura espanhola e atinge o território português no ponto de confluência com o rio Erges. Serve de fronteira entre os dois países até à foz do rio Sever.
No seu percurso, em Portugal, o rio Tejo estabelece o limite sul da Beira Baixa e o limite norte do Alentejo. Atravessa o Ribatejo, atinge o estuário frente a Vila Franca de Xira e desagua em S. Julião da Barra.
No trajecto espanhol as principais cidades banhadas pelo rio Tejo são: Aranjuez, Toledo, Malpica, Talavera de la Reina e Alcântara. Em Portugal nas margens do Tejo encontramos:
Vila Velha de Rodão, Abrantes, Constância, Santarém e Vila Franca de Xira. Na região do estuário os aglomerados urbanos mais importantes são Alcochete, Montijo, Moita, Barreiro, Seixal, Almada e Lisboa.

Fonte: A MOITA, OS BARCOS E O TEJO, edição Câmara Municipal da Moita.

Barreiro perde candidatura ao QREN por 12 minutos

A Câmara do Barreiro admitiu, esta quinta-feira, ter perdido a oportunidade de concorrer a apoios comunitários para valorização das frentes ribeirinhas e marítimas devido a um atraso de 12 minutos na candidatura, situação criticada pela oposição.

O vereador do PSD na autarquia do Barreiro, Bruno Vitorino, questionou, durante a reunião pública do executivo camarário, por que razão a cidade não foi contemplada com verbas do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN) para a Valorização das Frentes Ribeirinhas e Marítimas.

Em resposta, o presidente da Câmara do Barreiro, Carlos Humberto (PCP), explicou que a candidatura do município não foi considerada porque entrou com 12 minutos de atraso em relação ao prazo definido.

Carlos Humberto explicou que a candidatura era superior aos 3,5 milhões de financiamento e sublinhou que a autarquia está a preparar candidaturas idênticas para outros programas dentro do mesmo eixo do QREN ou para uma possível segunda fase.

A vereadora do PS, Sofia Cabral, criticou a actuação da câmara e pediu que se apurassem responsabilidades. “As candidaturas têm prazo, o município sabe e se não entregou por minutos é grave. São montantes que o Barreiro necessitava. Não aceito que se tenha entregue com 12 minutos de atraso, tem que se averiguar o que aconteceu”.

Bruno Vitorino referiu que é necessário “responsabilidade e profissionalismo”, defendendo que a culpa “não pode morrer solteira”. Carlos Humberto reconheceu que existem responsabilidades “políticas e técnicas” no processo.

Fonte: Jornal de Notícias

Vocação Marítima do Barreiro

Localizado na margem sul da Área Metropolitana de Lisboa, à beira Tejo, o concelho do Barreiro manteve, desde sempre, uma forte ligação às actividades ribeirinhas. O seu topónimo, desde logo, faz uma clara alusão ao local onde os primeiros “barreirenses”, pescadores oriundos do Algarve, exerciam a sua profissão: na barra do Porto de Lisboa.
A existência de infra-estruturas de produção como o Complexo Real de Vale de Zebro (sécs. XV a XIX), o Estaleiro Naval da Telha (finais do séc. XV) e o Forno Cerâmico da Mata da Machada (sécs. XV / XVI), constitui um testemunho da importância estratégica que o Barreiro deteve durante o período dos Descobrimentos Portugueses.

Gerido directamente pela Coroa, o Complexo Real de Vale de Zebro era constituído por 27 fornos de cozer biscoito, armazéns de trigo, cais de embarque e um moinho de maré de 8 moendas – o Moinho D’el Rei, o maior da região, além de vastas áreas de pinhal circundante. A sua instalação deve remontar ao reinado de D. Afonso V e era comparável a um outro existente em Lisboa, os Fornos da Porta da Cruz. Em conjunto, constituíam as duas unidades régias que asseguravam o fabrico de todo o biscoito necessário aos empreendimentos marítimos da expansão e dos Descobrimentos.
Ao nível local, o Complexo de Vale de Zebro influenciou positivamente Palhais, contribuindo para o seu desenvolvimento, atraindo uma elite de funcionários da Coroa, como Almoxarifes, Feitores, Escrivães, Mestres do Biscoito, Biscouteiros, etc.

Por outro lado, estas actividades exigiam grandes quantitativos de mão-de-obra. Nesse contexto, a Coroa recorreu à importação de escravos, empregues quer no Complexo Real, quer como escravos domésticos nas casas senhoriais. Em 1553, a quantidade de escravos era tal que existia na Igreja de Nª Sª da Graça uma «Confraria do Rosário dos Homens Pretos». Com o Terramoto de 1755, Vale de Zebro ficou praticamente destruído e todo o Complexo foi reedificado. São do período pombalino a fachada principal e as galerias de fornos no interior.
A Escola de Fuzileiros Navais, ali instalada desde 1961, consagrou uma parte do edifício ao Museu do Fuzileiro, onde apresenta uma colecção de objectos sobre a história e a evolução dos Fuzileiros em Portugal.

As actividades ligadas à construção naval, nas margens do Rio Coina, são tradicionalmente associadas à época da Expansão Portuguesa. Contudo, é de crer que, numa região onde abundava a madeira, tivessem anteriormente existido diversos estaleiros que asseguravam a construção das embarcações de pesca e de tráfego local.
A existência de um Arsenal de Marinha no lugar da Telha deve remontar ao século XV. Porém, é no século XVI e principalmente no século XVII – altura em que este estaleiro laborou activamente para a reconstrução da Marinha portuguesa, destruída após a queda da Invencível Armada – que ganha maior notoriedade.

Abrigada das tempestades de Inverno, a Feitoria da Telha, como também era designado este estaleiro, permitia a conclusão das embarcações, iniciadas no Verão na Ribeira das Naus de Lisboa, que, por estar muito exposta às invernias, impossibilitava a laboração nesta altura do ano. Das praias da Telha saíram muitos navios para as viagens dos Descobrimento e nos seus areais eram enterradas as madeiras, preparando-as assim para a construção naval. Actualmente, no local do antigo estaleiro funciona uma indústria de preparação de bacalhau, já centenária no concelho (1891), a Bensaúde SA.

O Forno de Cerâmica da Mata da Machada apresenta uma cronologia entre 1450 e 1530. Faz parte de uma olaria da qual apenas foi escavado um forno na década de 80 e situa-se em plena Mata Nacional da Machada. A sua localização explica-se pela grande abundância de lenha, combustível necessário ao funcionamento dos fornos, e pela existência de matéria-prima no local: a argila.
O espólio cerâmico proveniente da escavação desta olaria divide-se em duas grandes tipologias: louça de uso caseiro e peças de uso industrial.
Na primeira categoria integram-se as panelas, candeias, malgas, tigelas, escudelas, copos, pratos, caçoilas e peças de armazenamento de maiores dimensões como cântaros, alguidares, talhas e potes. Também se fabricavam telhas e tijolos para a construção.
A segunda categoria de peças é maioritariamente composta por um tipo de artefacto industrial: as Formas de Purga do Açúcar, ou “Pão de Açúcar”, a peça mais fabricada neste forno e destinada aos engenhos açucareiros insulares.
Nesta olaria foi descoberta ainda uma tipologia cerâmica, identificada na época como “forma de biscoito”, a qual serviria para fabrico deste produto nos fornos de Vale de Zebro. Em estudos recentes admite-se ter funções completamente distintas destas. As peças consistem em placas de barro de forma circular, com dimensões diversas. Tais artefactos constituiriam utensílios de olaria denominados “Pratos de Torno”, sobre os quais o oleiro fazia as peças e transportava-as para o local de seca, antes de entrarem no forno e serem cozidas.

Fonte: AML ESTUARIUM – NÚMERO 14, 2006.

Convento da Madre de Deus

O Convento da Madre de Deus da Verderena foi construído entre 1591 e 1609, tratando-se do 17º Convento da Província de Santa Maria da Arrábida. A sua fundadora foi Dona Francisca de Azambuja, esposa do Cavaleiro da Casa Real, Álvaro Mendes de Vasconcelos, perecido na batalha de Alcácer Quibir, em companhia de D. Sebastião.

Convento da Madre de Deus da Verderena

Com a sua construção pretendia-se a substituição do Convento de Nossa Senhora dos Prazeres em Palhais, fundado em 1549, por S. Pedro de Alcântara. Este situava-se num local muito sezonático, junto ao esteiro do Rio Coina, e por isso decidiu o Provincial da Ordem que o mesmo seria demolido e reedificado em local mais aprazível. Esta pretensão não agradou à população de Palhais, que impediu a destruição do imóvel. Contudo, a decisão de construir um novo Convento para os Franciscanos Arrábidos já havia sido abraçada por Dona Francisca, comprometendo-se a custear todas as despesas da construção. O terreno foi doado por duas senhoras barreirenses, Luísa e Brites de Faria.

A tipologia do Convento da Verderena insere-se no contexto das edificações dos Franciscanos Arrábidos, definida e imposta pela Regra de Santa Maria da Arrábida. No seu programa arquitectónico sobressaem as fórmulas da simplicidade e austeridade, num completo despojamento e a ausência de riqueza, princípio comum a todos os conventos arrabidinos, a que não é excepção o da Madre de Deus.

O Convento primitivo, todo em piso térreo, apresentava a Igreja Conventual, a Sacristia, a Sala do Capítulo, Casa de Profundis, Dormitórios, Refeitório, Casa da Livraria e Casa das Barbas.

No início do século XVIII, o imóvel sofreu remodelações profundas, obra de D. João António de La Concha, castelhano, Contratador Geral do Tabaco. Foi construído um piso superior para instalar os Dormitórios e anexa à Galilé, a Capela do Senhor dos Passos.

A extinção das Ordens Religiosas em 1834, determinou o encerramento do Convento e a sua venda em hasta pública, tendo sido adquirido por D. Henriqueta Gomes de Araújo, que o transformou na sua casa de fresco, passando a designar-se desde então Quinta do Convento.

Em 1969, foi adquirido, restaurado e remodelado pela Câmara Municipal do Barreiro, adaptando-o a novas funcionalidades. Abriu ao público em 1997.

Foi classificado como Monumento de Interesse Municipal em 30/04/1999
Localiza-se na Rua do Convento – Alto do Seixalinho

Descrição, Igreja de Sta. Cruz

Planta longitudinal, composta por templo com 2 torreões e pequenos anexos, regular, com coincidência exterior / interior. Volumes articulados na vertical. Cobertura em telhados de 2 águas no templo, de 3 águas nos anexos e coruchéus nos torreões.

Fachada principal orientada a O. com embasamento de pequena proeminência, de 3 panos divididos lateralmente por pilastras toscanas, gigantes, e pelos cunhais nos extremos dos torreões; pano central com portal coroado por frontão triangular, sobre cujo lintel se vê uma espada sobre cruz de Santiago, sobrepujado por janelão de cornija recta, encimado por óculo circular; remate em friso de coroamento, continuada; os torreões são de 2 registos marcados pela cornija continuada: nos registos inferiores, o da direita tem pano cego e o da esquerda tem 1 janela, encimada por mostrador de relógio em azulejo; os registos superiores têm 1 ventana sineira de arco pleno, nas respectivas fachadas; o remate é em coruchéu piramidal em revestimento azulejar, azul e branco.

Fachada N. de 2 panos delimitados lateralmente por cunhais; no pano da nave, portal entaipado de verga e cornija recta, sobrepujado por janelão com frontão curvo quebrado; o remate é em cornija de coroamento e beirado; o pano posterior tem, no 1º registo, 2 portas com 1 janela a meio e, no registo superior, 2 janelas, é de remate em beirado.

Fachada a S. com um pano com portal vazado, sobrepujado por janelão, cujos molduramentos e colocação são idênticos aos da fachada oposta; parte do alçado está em adossamento com os anexos.

Fachada posterior de 2 panos delimitados lateralmente por cunhais e pilastras, sendo o pano correspondente à capela-mor de 2 registos, com 2 vãos de janelos, e remate superior em empena angular com cornija e beirado; o pano do anexo tem 1 janelão e remata em platibanda.

INTERIOR de espaço diferenciado em capela-mor, sacristia e nave.

Capela-mor com altar-mor retabular em talha pintada, com algum douramento, com mesa com ressalto, de alvenaria, onde assentam 2 pares de colunas compósitas de cada lado de uma tela pintada, com frontão aberto, cobertura em abóbada de berço decorada com relevo com medalhão central, em estuque, com uma custódia e, ao centro, uma cruz à qual está abraçada Santa Helena; do lado da Epístola abre-se a porta de acesso à sacristia.

Nave única separada da capela-mor por arco cruzeiro, de pleno centro, com capelas laterais e baptistério. Nave com alçados laterais com paredes de 1,80 m de espessura, forrados até meio a azulejo seriados de repetição; do lado do Evangelho uma porta de acesso a anexo, a que se segue o arco toscano de pleno centro de uma capela pouco profunda, com imagem sobre mísula, coberta por abóbada de berço; no pano murário segue-se um púlpito com balcão de caixa decorada e um vão de porta entaipado; junto à porta principal abre-se o baptistério separado da nave por arco toscano de volta plena, com pia baptismal oitavada. Do lado da Epístola abrem-se vãos semelhantes aos rasgados no pano oposto; na espessura murária da capela deste lado, abre-se uma escada de cantaria que conduz ao púlpito, a um varandim rasgado sobre o vão da porta lateral, e ao coro-alto; de cada lado da nave existem 2 pias de água benta em mármore da Arrábida; correspondendo ao Baptistério, na parede fronteira, existe uma pequena dependência, toda coberta com aproveitamentos de azulejos, com 2 pequenos vãos de janela, entaipados. Coro-alto com balcão de balaustrada em madeira com cobertura em falsa abóbada de arco em asa de cesto, em madeira. A nave é coberta por abóbada em asa de cesto, coberta por tela pintada guarnecida com ornatos e desenhos, com efeito de perspectiva e sombras; o pavimento é ladrilhado em tijolo.

Na sacristia contígua ao templo, à direita, existe um arcaz a todo o seu comprimento. No cartório destaque para a existência de obras escritas do séc. 17. À esquerda, na Casa das Sessões existem a arrecadação e o arquivo da Irmandade do Santíssimo.

AZULEJOS – Mostrador de relógio em azulejo no exterior do torreão esquerdo da igreja, com o dístico POVO e com a indicação à volta do mostrador CAM – ERA. / MUNI – CIPAL, e a data de 1837.

Painel de azulejos setecentistas nas paredes laterais da capela-mor, formando dois quadros de 4,06 x 1,95 metros, representando o da direita, O Baptismo de Cristo, e o da esquerda, O Percursor anunciando ao povo a vinda do Messias; ao longo das paredes laterais da nave azulejos ornamentais, da mesma época, constituindo um friso de 1,28 m de altura. No espaço do lado da Epístola, junto à porta principal, azulejos de figura avulsa e aproveitamento de frisos de proveniência desconhecida.
Autora: Albertina Belo.

Por: Albertina Belo – no sítio www.monumentos.pt

Igreja Paroquial de Santa Cruz

A Igreja de Santa Cruz ergue-se desde tempos remotos na Praça a que emprestou o seu nome – Praça de Santa Cruz (Centro cívico da Vila quinhentista). É conhecida a sua existência desde 1487, ano da criação da Paróquia de Santa Cruz, sendo uma das ermidas anexas à Matriz de S. Lourenço de Alhos Vedros, do qual o Barreiro fazia parte.

Foi elevada a Igreja Matriz, após D. Manuel I, outorgar Carta de Foral à então Vila Nova do Barreiro, a 16 de Janeiro de 1521, subtraindo-a ao alfoz de Alhos Vedros ao qual pertencia.

O actual aspecto da Igreja, resulta dos arranjos efectuados entre 1835 e 1850 e, de reconstrução em 1877. A Igreja Matriz de Santa Cruz, foi encerrada ao culto em 1910, tendo sido profanada e parte do seu interior pilhado durante as convulsões, que se seguiram à implantação da República. Durante algum tempo o seu interior serviu, como palheiro, reabrindo no ano de 1929.

A frontaria espelha bem esta realidade, não revelando motivos artísticos de interesse. Ressalva para o símbolo da Cruz da Ordem de Santiago que está a sobrepujar o portal de entrada. Também numa das torres sineiras foi inserido um dos relógios, proveniente do extinto Convento da Madre de Deus da Verderena. No seu interior existe uma pia baptismal que provavelmente é da sua origem.

Igreja de Santa Cruz, Barreiro

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Antigo Bairro da Folha

BAIRRO DAS PALMEIRAS
ENSOMBRA BARREIRO
Por: Elsa Resende / Lusa

Bairro das Palmeiras (Bairro da Folha)

A ‘casa’ de Joaquim é feita à medida de um beliche, sofá e cómoda. A de Rui alberga oito pessoas – ele, a mulher e seis filhos. Ambos vivem no antigo bairro operário das Palmeiras, no Barreiro, Portugal.

Um bairro que nasceu em 1908 para acolher os trabalhadores da CUF e se transformou, após o 25 de Abril de 1974 e o encerramento de fábricas, num gueto.

Um gueto com habitações degradadas e histórias de consumo e tráfico de droga, desemprego, fome, alcoolismo, negligência, violência doméstica, absentismo e insucesso escolar.

Um gueto onde também subsistem o orgulho de ser do bairro, o convívio nas colectividades e onde há pequenos luxos, como uma parabólica num telhado de zinco e um carro à porta de casa. Ou o Grupo Desportivo 1.º de Maio, que em 1998 conquistou a taça de campeão europeu em futebol de salão.

Joaquim Dias, 59 anos, reformado, partilha um beliche com a filha, de 21, que trabalha num restaurante. O filho, dois anos mais novo que a irmã, procura emprego, dorme no chão, tendo como vista um tecto forrado a cartão com uma lâmpada.

Rui Rodrigues, 48 anos, veio para o bairro em Outubro. Há um ano saiu de Angola e chegou à Quinta do Conde, em Sesimbra, onde morou na casa de uma familiar até a senhoria o despejar.

Com uma pensão em atraso, documentos por revalidar, a mulher grávida, sem emprego e em processo de legalização, Rui escolheu um cubículo com duas divisórias para enfiar três beliches, uma mesa e um fogão.

É lá que comem – a comida muitas vezes dada por vizinhos – e dormem o casal e seis crianças. A carga de trabalhos está para aumentar com a chegada do filho mais velho, que vai ter de dormir no chão e… lavar-se no balneário público e usar o balde, como os demais. Rui deve renda ao senhorio. Paga por mês  75 euros. Mas há quem pague o dobro.

Nicolau Vieira, líder da Comissão de Moradores há 29 anos, é o primeiro a reconhecer as dificuldades do bairro: famílias numerosas com baixa escolaridade, sem emprego ou com trabalhos precários, que se refugiam, muitas vezes, no tabaco, na bebida, na droga.

Fonte: Correio da Manhã, em 26 Janeiro 2003