Igreja Católica e Estado

Igreja Católica e Estado. Leigos e Sacerdotes diante do golpe de 1964.

Através da pesquisa de mestrado intitulada “A Ação Social Católica e a Luta Operária: a experiência dos jovens operários católicos em Santo André (1954-1964)” analisei as relações que os militantes da Juventude Operária Católica (JOC) estabeleceram com a hierarquia da Igreja Católica do ABC (SP), ao qual estavam submetidos, e com as outras organizações da classe operária com as quais se relacionavam …

Maria Blassioli Moraes
Pós-graduanda DH – FFLCH/USP

O depoimento do padre operário francês José Mahon (11), membro do Instituto Filhos da Caridade, demonstrou que não apoiou a realização do movimento militar e, segundo este, já durante o governo do Marechal Humberto Castelo Branco observaram a recessão que decaiu sobre os trabalhadores.
… houve então a ditadura militar, no começo, é como agora, no começo achavam que podia ser bom, vamos ver, vamos deixar passar um tempo, teve aquela campanha ouro para o bem do Brasil, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ai muita gente, eu, pessoalmente, quando vi esta revolução militar de 31 de março, eu já fui contra na primeira hora, nunca acreditei que podia dar alguma coisa boa para o Brasil, mas muita gente deu chance a revolução, ao Castelo Branco e veio em 65 uma onda de desemprego muito grande e D. Jorge fez uma carta aberta a Castelo Branco que foi publicada nos jornais daquela época, onde ele tomava parte claramente contra toda esta política dos militares, tanto a Ação Católica Operária, como JOC tiveram vários padres que começaram a se manifestar a favor do povo sofrido e contra essa revolução que suprime o direito de greve, que dava o arrocho salarial, ai veio as condições de moradia, ninguém mais podia comprar um terreno e pagar um aluguél, a não ser realmente que seja um bom profissional e teve vários manifestos, vários panfletos distribuídos escondidos para manifestar que a Igreja não se conformava com essa situação e essa atitude política do governo militar que estava tomando conta do país e naquela época também, em 64, nós resolvemos tentar uma experiência de trabalho em fábrica com os operários, nós estávamos em três porque chegou mais um depois, o Padre Roberto, e nós três fomos trabalhar em fábrica, então nós íamos trabalhar e eu fui o primeiro, eu trabalhei de fresador na Villares, indústrias Villares, na Senador Vergueiro, em São Bernardo do Campo, e trabalhei em 64 e foi muito positivo porque os operários estranhavam a presença de um padre, mas gostavam e depois tinham muita liberdade comigo e, inicialmente, trabalhava só à noite, trabalhava das 21:15 às 6:30 da manhã, então eu fiquei, trabalhava à noite e dormia de dia. (12)
Padre Mahon destacou importantes movimentos organizados por setores conservadores da Igreja, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que foram responsáveis por disseminar a percepção de que toda a Igreja brasileira estava a favor do movimento militar. Entretanto, em seguida ressaltou sua posição contrária ao golpe e afirmou que o próprio Bispo, autoridade máxima na Igreja do ABC, não tardou em declarar publicamente suas críticas ao novo governo. O Padre justificou sua oposição em decorrência da situação econômica enfrentada pela população da região do ABC.

Fonte: Maria Blassioli Moraes, em Leigos e sacerdotes…