Revista Brasileira de História

Novas leituras para antigas lutas: representatividade e organização coletiva entre trabalhadores do ABC Paulista – 1964/1990
Antônio de Almeida
Universidade Federal de Uberlândia

RESUMO
O artigo procura mostrar como os trabalhadores da região do ABC Paulista, apesar da situação de extrema adversidade imposta pela ditadura militar, que perseguiu violentamente as lideranças e transformou as entidades representativas em meros órgãos assistencialistas, reagem a essa situação retomando a capacidade de luta e de organização coletiva. Discute também a aproximação ocorrida entre diferentes correntes da esquerda local como condição para o enfrentamento do regime militar, e chama a atenção para o fato de que as dificuldades criadas por esse mesmo regime forçaram um redimensionamento nas estratégias de intervenção social desses trabalhadores, dando origem à defesa de uma participação direta das bases nos processos decisórios e suplantando as tradicionais teses cupulistas. Conclui mostrando a importância dessas novas formulações no processo de criação e organização do PT e da CUT.
Por vezes, essas reuniões ocorriam no meio do mato, com esquemas de segurança montados para alertar os participantes em caso de algum imprevisto. Noutros momentos, elas aconteciam em lugares pouco suspeitos e os disfarces utilizados por seus integrantes eram um mecanismo para não chamar a atenção.

… vivenciadas por Padre José Mahon, um dos padres operários da região que na época …
… No Jardim Zaira, por exemplo, um dos bairros pobres da periferia de Mauá, várias mulheres dos movimentos comunitários foram presas e torturadas, permanecendo na cadeia por vários dias e, conseqüentemente, perdendo os seus empregos3.
… Uma vez eu entro numa sala da igreja e vejo uns quinze a vinte homens(…) estudando a bíblia. Eu só conhecia uns dois ou três. Depois que eu soube que eles estavam fazendo uma reunião clandestina e todos tinham a bíblia aberta porque se alguém entrasse de repente, alegariam que estavam estudando a bíblia. Eu era vigário da paróquia mas não queria saber o que estava acontecendo porque se um dia eu fosse preso e torturado eu podia falar. Agora não sabendo das coisas, tudo bem19.

Fonte: Rev. bras. Hist. vol.19 n.37 São Paulo Sept. 1999