D. MANUEL MARTINS – Parte IV

D. MANUEL MARTINS, BISPO EMÉRITO DE SETÚBAL
A Igreja transformou-se mais em empresa do que em testemunho

– Então gostou da mudança…
– Não sei. Estou a simpatizar com o advérbio. Os verbos estão quase todos por conjugar, por parte do governo. Fazer, tirar, arrumar, produzir, crescer… Os advérbios têm sido simpáticos, para mim. O modo de actuação. O Passos Coelho, que ainda não provou nada, tem um tipo de actuação interessante, com base na discrição. Oxalá seja para continuar. E que comece a pronunciar os verbos. Quanto aos ministros, gostei muito do das Finanças que fugiu a toda a teatralização do parlamento, ouviu muito e deu uma lição serena sem desrespeitar nenhum deputado. Quanto aos advérbios, estou a gostar.

Este pedaço da conversa foi o que mais se aproximou da entrevista que tinha imaginado. Ainda acrescentou que a crise por que passa o país faz-lhe lembrar uma imagem:
– Há um buraco tão grande, um tipo que cai nesse buraco e nós nem corda temos para o tirar. Esta é a imagem do país.
A partir daqui começo a ficar preocupado com as fotografias que tenho que tirar para ilustrar a entrevista. Retiro a máquina sub-repticiamente da mochila e começo a disparar à toa, com a câmara em cima dos joelhos. Ele apercebe-se, mas faz de conta. Já não presto grande atenção ao que me diz. Fala de um livro de Almeida Santos sobre a nova ordem mundial, resume-o e conclui: “Estamos num estado sem território. O grande Deus é o dinheiro. Estamos pendurados na economia.”

Lembro-me que lhe atirei mais algumas perguntas atabalhoadas no meio do ruído característico dos disparos fotográficos. A reacção do povo português, o que se passa na Grécia, o que se passou em Oslo. Recordo que a dada altura D. Manuel Martins me dizia, a propósito do desespero, que “em Setúbal, na cidade, só num dia, houve oito suicídios e foram pedidos pela honestidade”, para explicar que o povo está diferente e mais anestesiado. As manifestações já são um ritual que não molestam ninguém. Uma perda de tempo. Mas acredita no mundo novo que se está a gerar, segundo dizia João Paulo II, e que os sinais podem ser as manifestações dos jovens apartidários, que só querem dizer que não estão contentes, que isto assim não pode continuar. “Anda qualquer coisa a germinar dentro das pessoas. Temos que encontrar outra forma de protesto porque o mundo não é o mesmo.”

O clique do gravador foi a guilhotina da entrevista. D. Manuel Martins libertou-se do sofá e esticou as pernas no exíguo compartimento que lhe serve de escritório. Continuou a liderar a conversa. Aproveitei para lhe apontar a câmara fotográfica: “Pare lá com isso. Não são precisas mais fotografias.”
Trouxe-me à porta, ficou educadamente à espera que eu entrasse no carro, fizesse a manobra de inversão de marcha e iniciasse a viagem de regresso. Acenei-lhe, sorrindo, enquanto pensava:
“Malandro do bispo, deu-me cabo da entrevista…”

Fonte: V. M. Pinto (texto e fotos), data: 2011-08-05
Solidariedade, Mensário da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade.