D. MANUEL MARTINS – Parte III

D. MANUEL MARTINS, BISPO EMÉRITO DE SETÚBAL
A Igreja transformou-se mais em empresa do que em testemunho

Sente-se que o perturba a missão da Igreja nos tempos modernos. Diz que o padre é um homem público que não se pertence. Pertence aos outros e, por isso, não compreende que os paroquianos não tenham o número do telemóvel do pastor. Chama-lhe pecado grave porque há doentes que precisam de cuidados religiosos fora de horas e há funerais que não escolhem dia para ocorrerem. As emergências da fé exigem disponibilidade e uma figura pública, como é o padre, não tem direito a telefone privado. No rol de desobediências à vocação confessa que lhe causa sofrimento a avareza. Que o padre enriqueça à custa do altar. D. Manuel Martins, agora, lamuria…
– Alguns, depois da ordenação, compram carro novo, constroem casas, entram na filosofia dos empréstimos. O povo percebe. O povo perdoa mais uma quebra na ordem da castidade, do celibato, de algum que tem um filho e o perfilha, que o reconhece como seu, o povo perdoa isso com mais facilidade do que a avareza. É das coisas que me dói mais, tanto a nível dos padres como da Igreja.

As mãos do bispo continuam a voar por cima da cabeça. Pigarreia para limpar a voz e deixar sair límpidas as ideias que estão encadeadas. Do papel da Igreja passa para a necessidade de Deus.
– Com as conquistas modernas está a verificar-se a chamada saudade de Deus. Deus era um recurso da nossa ignorância, mas os mestres sociólogos explicam que já estamos num tempo pós-moderno em que o homem começa a ter saudade de Deus. Procura das formas mais diversas, pode ser com o budismo, manifestações exotéricas, orientais, ou coisa parecida, mas sente a necessidade Dele. É semelhante àquilo que se define como a saudade do quintal. As pessoas estão a regressar aos campos. Muitas recuperam as casas abandonadas da família e têm saudade da panela de pernas onde se fazia a sopa e a fruta sem pesticidas.

Decidi estugar o passo para alcançar o plano de questões que tinha decidido fazer. Falei-lhe da crise para ver se concordava comigo na ideia de que o regresso às origens também é feita por causa de necessidades materiais. Falou da desumanização das cidades, que embebedam as pessoas durante um tempo, e delongou-se a explicar a teoria da saudade do quintal. Contou mais uma história sobre um rapaz que morreu no Luxemburgo e a comunidade organizou-se ainda antes da família para enviar o corpo para a terra de origem. E a história tem uma moral, como não podia deixar de ser: “até na morte queremos estar na Terra, porque até mortos, na Terra convivemos mais. É por isso que a gente diz que a terra da nossa Terra é sempre mais leve. O esquecimento é a grande morte. Não são lamechices, são estas coisas que fazem a nossa humanidade.”

O estalido do gravador funcionou como cronómetro. Já passara meia hora e dos objectivos da entrevista nem um estava cumprido. D. Manuel Martins, na combinação telefónica que fizéramos, dias antes, tinha dito, quando lhe referi o tempo que precisava, “nunca é só meia hora, pois não?”. Estava certo. Para recuperar tempo e temas atirei, um pouco de chofre, com a pergunta sobre os políticos, que nos governam, sem especificar quais. Depois de ter assumido alguma dificuldade em falar disso, D. Manuel Martins, de sorriso em riste, contou mais uma história. A do conselho que deu a uma “nossa” vizinha que fazia uma marmelada com um sabor especial que pretendia alugar uma loja ali perto. “Você devia convidar o Sócrates para provar. Ele chegava aqui e dizia que logo que nós tínhamos a melhor marmelada do mundo. Que estávamos na dianteira da Europa. Não era? Era o que nos dizia todos os dias.”

– Ele nunca desceu ao chão a comungar a sorte, a pouca sorte, a desgraçada sorte da população portuguesa. Eram sempre as grandes coisas que nos punham nos primeiros lugares. Pode ser uma questão genética. Era tão persistente, fazia tão parte dele… Era uma política mal pensada, mal realizada, com políticos que não eram competentes. Os nossos políticos, a começar pelos autarcas, estão rodeados por uma série de carraças que os sugam ou se aproveitam deles para engordar ou então não os deixam funcionar. Hoje chamar político a um tipo é o mesmo que chamar-lhe os piores nomes. Já reparou que uma pessoa para provar que é séria costuma dizer: Eu não sou político.

Parte IV

Fonte: V. M. Pinto (texto e fotos), data: 2011-08-05
Solidariedade, Mensário da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade.