D. MANUEL MARTINS – Parte II

D. MANUEL MARTINS, BISPO EMÉRITO DE SETÚBAL
A Igreja transformou-se mais em empresa do que em testemunho

Era o desprestígio daqueles que, tendo saído de casa, não conseguiram vencer na vida. Toda a gente foi atingida pelo desemprego, salários atrasados, encerramentos, despedimentos sem indemnizações… aquilo foi um pavor. De facto, julgo que lá foi pior. E a reacção foi muito violenta e mais forte. Portugal está a reagir. A Igreja, os partidos políticos, grupos, há várias áreas onde essas reacções se verificam, mas lá era todo o distrito um clamor. Quem lançou o primeiro clamor mais alto, desesperado, atrevido, indignado, foi a Igreja e eu comparo esta situação com a situação actual e vejo – com muita pena, não é para enaltecer a igreja de Setúbal em relação à actual -, mas uma das coisas que me dói, é que faltam sinais. Os bispos clamam, denunciam, promovem acções, mas a mim parece-me que, apesar de tudo isto, ainda faltam os sinais.

Nós pedimos que poupem, que mudem de vida, que dêem uma parte, mas continuamos sempre com o nosso. Eu estava em pleno exercício da minha missão quando o papa João Paulo II publicou um documento notável, uma Encíclica notável em que nos pedia a nós, responsáveis da igreja, que em vez de palavras bonitas nos desfizéssemos do material, que déssemos o salto e que vendêssemos os bens que a igreja e congregações religiosas possuem, que estão cheias de bens, quintas, casas, residências paroquiais abandonadas, tanta coisa… o Santo Padre falava no ouro que temos e que não presta para nada, não tem nem valor histórico nem artístico, e que está pendurado nos santinhos, festejados a cada ano. Até parece mais uma idolatria do que um acto religioso. Aquilo tem alguma coisa a ver com a fé? Não tem. Os sinais são mais importantes do que as palavras. Como diziam os santos padres dos primeiros séculos, o dinheiro só se legitima na Igreja pelos pobres. Infelizmente, a igreja transformou-se mais em empresa do que em testemunho.

Eu seguia-lhe o pensamento sem coragem para interromper ou provocar alguma mudança de linha. De vez em quando lançava um olhar rápido ao gravador para me certificar que estava a funcionar e garantir que os gestos esvoaçantes do meu interlocutor não o abatiam do sofá onde estava pousado.
– Estou a escandalizá-lo…. – Apanhou-me desprevenido com a observação. Balbuciei um não que confirmava mais a sua suspeita do que revelava a minha delícia na conversa. Mas, mesmo que considerasse que estava a escandalizar-me não recuou.
– A Igreja é uma instituição, precisa de meios para se expandir, mas, para além do estritamente indispensável, que não tenha mais nada. Essa, julgo eu, é a vontade de Jesus Cristo: “Ide e não leveis nada convosco…”
Julguei que a pausa era o sinal para que colocasse mais uma pergunta. Saiu-me uma observação: A capacidade de dar e dar o exemplo faz sentido hoje…
É o de dar-se, responde de pronto. E contou-me uma história que começou como todas as histórias: “Uma vez quando eu era pároco de Cedofeita…” e desfiou recordações de quando D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula, missionário do movimento Mundo Melhor, que Pio XII quis levar à Igreja inteira, esteve em missão na paróquia para a transformar numa verdadeira família de Deus, uma habilidade pastoral, com uma organização capilar, no que respeita à caridade e à partilha, atingindo toda gente. Depois da pregação houve um padre que a levou à prática e, um dia, contou que uma senhora paroquiana, de sangue azul, que estava sempre pronta para dar e participar nas campanhas, se sentiu incomodada por estar sempre a ouvir a mesma prédica. “Eu tenho dado tanto e o senhor padre continua a dizer que é preciso dar mais…”
– Sabe o que o padre respondeu? – pergunta-me D. Manuel Martins sem me deixar retorquir. – A senhora tem dado muito, mas ainda não se deu a si.
– É fácil dar esmolas, mas é difícil dar-se. – Conclui o bispo cada vez mais encafuado no sofá verde. Tento fazer dele o centro da conversa provocando-lhe um evidente desconforto. O tom de voz baixou…

– É o seu caso. Continua a dar-se?
– Bem… foi sempre o meu ADN. Agora tenho uma intervenção bem menos intensa. Falta-me o púlpito. Refugio-me mais em mim. Quando se renuncia, um dos textos a apresentar ao Santo Padre traduz o sentimento de termos andado toda a vida fora de casa. Desta idade é preciso estar dentro de casa porque há muita coisa para pôr em ordem, para arrumar e deixar entrar o oxigénio. Aceito demasiadas coisas. Tenho um cardápio dos mandamentos da velhice, para não me deixar envelhecer. Mas vou dizendo que umas das características da velhice é também dizer a tudo que sim. Aceitar tudo. Fisicamente não tenho dificuldade nenhuma, já hoje fui dar o meu passeio de bicicleta, as pessoas ficam admiradas, como é que um velhote de 84 anos não tem limitações nenhumas. Estou cansado, mas apenas mentalmente. Dissipo-me muito. Tenho necessidade de estar cá dentro. De regressar a casa…

Parte III

Fonte: V. M. Pinto (texto e fotos), data: 2011-08-05
Solidariedade, Mensário da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade.