Muleta ou Bote de Arrastar

Curiosidades históricas:
A muleta, ou bote de arrastar, e o varino

A muleta, também chamada bote de arrastar, usava as redes de tartaranha e pescava até fora da barra, entre o cabo da Roca e o cabo Espichel. A beleza e a elegância desta embarcação eram-lhe dadas pelo uso das seguintes velas: varredouras à ré; moletim à proa; varredoura da vara, cojusteira, toldo da ponte e moletim de vara. A muleta tinha uma vela bastarda e o mastro curto e inclinado para vante e podia largar muitas e pequeninas velas servindo-se de umas vergônteas lançadas para diante pela proa e pela popa, dando-lhe regular andamento com ventos bonançosos. O seu casco tinha considerável largura a meio comprimento, e a proa era de forma arredondada e curva; na popa, pendia-lhe um grande leme, tendo mais no flanco larga pá que lhe aguentava a inclinação quando mergulhada por barlavento.

Estas embarcações, típicas dos pescadores do Seixal e do Barreiro, vieram a morrer no Tejo no início deste século, apesar de Ramalho Ortigão já em 1876 chamar a atenção para o seu fim: “… e as elegantes muletas do Seixal, que infelizmente tendem a desaparecer da nossa baía.” Em sua substituição, usaram-se os “modernos batéis, que pescam pelo mesmo sistema”, conforme registava Baldaque da Silva em 1895. O batel do Seixal, ou bote da tartaranha, era de tipo misto, com casco de bote modificado e velame da muleta adaptado ao seu menor porte.

De entre as embarcações que asseguravam a circulação de bens em toda a área de Lisboa a partir da segunda metade do século XIX, destacaram-se os varinos de carga, contemporâneos do início da industrialização das margens do estuário do Tejo. Este tipo de embarcação, de proa redonda e fundo para poder navegar em águas pouco profundas dos esteiros, veio dar vida e cor ao vasto estuário do rio Tejo. O varino, adaptado a águas baixas, é uma embarcação leve, elegante e graciosa, possuindo uma decoração vistosa e florida, com o nome no painel de proa. A moldura, feita de rosas grandes, folhagem, rosáceas, vai de lado a lado, continuando de bombordo a estibordo para abranger todo o painel. O interior é igualmente decorado: à volta da amurada, no poço, ou escotilha do porão, nas molduras e nas bandeiras das portas. A decoração é opulenta e majestosa, arvorando um mastro onde larga um grande latino triangular, e à proa larga uma vela.

FonteSelecções do Reader’s Digest