Fornos Cerâmicos

Forno cerâmico dos séculos XV e XVI na Mata da Machada

Primeiro Forno Cerâmico da Mata da MachadaFaz parte de uma olaria da qual apenas foi escavado um forno em 1981 (primeira intervenção arqueológica no Concelho do Barreiro), situado em plena Mata Nacional da Machada. 

As escavações que se estenderam a uma área com cerca de 1000 m2 puseram a descoberto um forno cerâmico dos sécs. XV/XVI, «(…) cujas paredes se levantam ainda a um metro e meio da grelha, um espaço aproximadamente quadrangular, com os suportes longitudinais mais poderosos e com uma leve curvatura de arranque, sugerindo uma cobertura em abóbada de berço. A porta de acesso a este espaço abre-se a NW. A câmara de enfornamento rondaria os 20 m3.» Cláudio Torres, s.d..

Das produções referentes ao quotidiano doméstico foram exumadas, entre outras as seguintes tipologias de cerâmica vidrada e por vidrar: malgas, pratos, candeias, tigelas, copos, escudelas e talhas. A par destas foram produzidas peças de uso “industrial” como: pesos de rede, telhas; formas de biscoito, para o Complexo de Vale de Zebro e formas de pão de açúcar, destinadas à exportação para os engenhos açucareiros insulares.
A proximidade do rio Coina, permitia um rápido escoamento da produção, a grande abundância de lenha e a existência de argila no local, justificavam a sua localização.

Decorridos mais de vinte e cinco anos sobre a realização da primeira intervenção arqueológica, é uma das poucas olarias conhecidas dos séculos XV e XVI, o que atesta a sua importância no contexto nacional.

O Forno Cerâmico da Mata da Machada funcionava então como subsidiário dos Fornos de Vale de Zebro, produzindo as formas cerâmicas de tamanho variável, para o fabrico de Biscoito.

Segundo o Regimento dos Fornos de Vale de Zebro: «Ao Mestre dos biscoutos pertence saber como os Biscouteiros, e Mestre das Masseiras usão de seus officios, e se amassão o pão para os biscoutos na forma que he necessário, para que saião bem feitos, e ver quando estão levadas as massas para se lançarem nos fornos, de maneira que não saião os ditos biscoutos asmos» Um Olhar sobre o Barreiro, Junho de 1989.

Do caís do Complexo Real de Vale de Zebro embarcavam também produzidas na Mata da Machada – Formas de Pão de Açúcar, as quais tinham como provável destino a ilha da Madeira, cujo apogeu do ciclo açucareiro data dos sécs. XV/XVI. A importância desta actividade económica madeirense é testemunhada em várias representações heráldicas entre os sécs. XVI e XVIII, onde figuravam as formas de Pão de Açúcar.

Com a decadência da produção açucareira madeirense, no segundo quartel do séc. XVI, assiste-se no Brasil à plantação intensiva de cana-de-açúcar e ao desenvolvimento da produção açucareira. Nos primeiros anos de produção é provável que os engenhos açucareiros desta colónia tenham utilizado as formas cerâmicas produzidas no Barreiro, conjuntura que se alterou com o incremento desta produção, passando a serem também fabricadas no Brasil.

Deste modo a conjuntura expansionista e colonial de Portugal entre os sécs. XV-XVI foi em grande parte suportada pelas infra-estruturas proto-industriais da margem Sul do Estuário do rio Tejo: Fornos Cerâmicos da Mata da Machada e Complexo Real de Vale de Zebro.

Há muitos anos que José Dias da Silva “Padeirinho” (quem melhor conhece a Mata Nacional da Machada), vinha alertando para a existência no “Pinhal da Machada” de vestígios de uma olaria…