Antigo Bairro da Folha

BAIRRO DAS PALMEIRAS
ENSOMBRA BARREIRO
Por: Elsa Resende / Lusa

Bairro das Palmeiras (Bairro da Folha)

A ‘casa’ de Joaquim é feita à medida de um beliche, sofá e cómoda. A de Rui alberga oito pessoas – ele, a mulher e seis filhos. Ambos vivem no antigo bairro operário das Palmeiras, no Barreiro, Portugal.

Um bairro que nasceu em 1908 para acolher os trabalhadores da CUF e se transformou, após o 25 de Abril de 1974 e o encerramento de fábricas, num gueto.

Um gueto com habitações degradadas e histórias de consumo e tráfico de droga, desemprego, fome, alcoolismo, negligência, violência doméstica, absentismo e insucesso escolar.

Um gueto onde também subsistem o orgulho de ser do bairro, o convívio nas colectividades e onde há pequenos luxos, como uma parabólica num telhado de zinco e um carro à porta de casa. Ou o Grupo Desportivo 1.º de Maio, que em 1998 conquistou a taça de campeão europeu em futebol de salão.

Joaquim Dias, 59 anos, reformado, partilha um beliche com a filha, de 21, que trabalha num restaurante. O filho, dois anos mais novo que a irmã, procura emprego, dorme no chão, tendo como vista um tecto forrado a cartão com uma lâmpada.

Rui Rodrigues, 48 anos, veio para o bairro em Outubro. Há um ano saiu de Angola e chegou à Quinta do Conde, em Sesimbra, onde morou na casa de uma familiar até a senhoria o despejar.

Com uma pensão em atraso, documentos por revalidar, a mulher grávida, sem emprego e em processo de legalização, Rui escolheu um cubículo com duas divisórias para enfiar três beliches, uma mesa e um fogão.

É lá que comem – a comida muitas vezes dada por vizinhos – e dormem o casal e seis crianças. A carga de trabalhos está para aumentar com a chegada do filho mais velho, que vai ter de dormir no chão e… lavar-se no balneário público e usar o balde, como os demais. Rui deve renda ao senhorio. Paga por mês  75 euros. Mas há quem pague o dobro.

Nicolau Vieira, líder da Comissão de Moradores há 29 anos, é o primeiro a reconhecer as dificuldades do bairro: famílias numerosas com baixa escolaridade, sem emprego ou com trabalhos precários, que se refugiam, muitas vezes, no tabaco, na bebida, na droga.

Fonte: Correio da Manhã, em 26 Janeiro 2003