Síntese da História do Barreiro

Fundação

A cidade portuguesa de Barreiro teve origem numa «pobra» ou aldeia ribeirinha, repovoada após a reconquista cristã da zona, sob a égide dos Cavaleiros da Ordem de Santiago da Espada repovoaram o local. Os seus povoadores dedicavam-se às actividades piscatórias e da extracção do sal. A paróquia de Santa Cruz do Barreiro remonta aos século XIII-XIV, tendo sido comenda da Ordem de Santiago da Espada.

Barreiro na expansão portuguesa séculos XV, XVI

O Barreiro teve um papel importante nos Descobrimentos Portugueses devido ao seu factor geográfico ser o ideal para a construção naval. No esteiro do rio Tejo, que no Barreiro entra pelo rio Coina, encontrava-se Vale de Zebro onde outrora se ergueram fornos de fabrico de biscoitos que abasteciam as naus que saíam de Lisboa rumo à Índia e ao Brasil. As naus começavam a ser construídas no inicio do verão na ribeira das Naus em Lisboa. Na altura de inverno eram concluídas na Feitoria da Telha, nas margens do Rio Coina, por ser uma zona mais abrigada das tempestades de inverno e onde abundava a madeira. A partir daí construíram-se outras instalações como o forno cerâmico da Mata da Machada, importante na fabricação de biscoitos para serem levados como mantimentos nas naus, e o complexo Real de Vale de Zebro que albergava em armazéns o trigo que era moído num moinho de maré e que seria posteriormente utilizado no fabrico dos biscoitos do forno da Mata da Machada e nos outros 27 fornos do complexo Real de Vale de Zebro. A produção de vinho e a extracção de sal no Barreiro, também contribuíam para o abastecimento das naus.

– Vasco da Gama terá visitado por várias vezes o Barreiro, mais seu irmão Paulo da Gama, mais propriamente a vila de Palhais, para passar revista e até mesmo supervisionar a construção das naus e a logística dos navios que eles próprios iriam comandar rumo à Índia. Curiosamente Vasco da Gama, voltaria a passar novamente pelo Barreiro, mas cerca de 300 anos depois. Em 10 de junho de 1880, data da trasladação dos ossos de Camões e Vasco da Gama para o mosteiro dos Jerónimos. As ossadas de Vasco da Gama foram transportadas da Vidigueira até ao Barreiro de comboio, onde no Barreiro, esperava já no Bico do Mexilhoeiro, a corveta de guerra Mindelo, vinda de Lisboa com o vapor Operário, rebocando em escaler armado em câmara ardente, que tomou imediatamente o rumo do Barreiro, ladeado de uma dezena de embarcações, conduziam o ministro da Marinha e Ultramar.
– Álvaro Velho (século XV-XVI) terá nascido no Barreiro. Foi cronista e participou como marinheiro ou soldado na expedição de descoberta do caminho marítimo para a Índia comandada por Vasco da Gama em 1497. É-lhe atribuída a autoria de um diário de bordo anónimo, principal testemunho presencial dos acontecimentos conhecido. O diário de bordo de Álvaro Velho, ou Roteiro da Índia, chegou até nós incompleto, desconhecendo-se o manuscrito original. Uma cópia encontra-se na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Foi publicado no Porto em 1838, com o nome “Roteiro da Viagem que em Descobrimento da Índia pelo Cabo da Boa Esperança fez D. Vasco da Gama em 1497”. Após esta viagem, Álvaro Velho terá passado oito anos na Guiné (1499-1507).
– Complexo Real de Vale de Zebro, a sua instalação deve remontar ao reinado de D. Afonso V, e era comparável a um outro existente em Lisboa, os Fornos da Porta da Cruz. Em conjunto constituíam as duas unidades régias que asseguravam o fabrico de todo o biscoito necessário aos empreendimentos marítimos da expansão e dos descobrimentos.

Ao nível local o Complexo de Vale de Zebro influenciou positivamente Palhais contribuindo para o seu desenvolvimento, atraindo uma elite de funcionários da coroa como Almoxarifes, Feitores, Escrivães, Mestres do Biscoito, Biscouteiros, etc. Por outro lado, estas actividades exigiam grandes quantitativos de mão-de-obra. Nesse contexto, a Coroa recorreu à importação de escravos, empregues quer no Complexo Real, quer como escravos domésticos nas casas senhoriais. Em 1553 a quantidade de escravos era tal, que existia na Igreja de Nª Sª da Graça uma «Confraria do Rosário dos Homens Pretos». Com o Terramoto de 1755, Vale de Zebro ficou praticamente destruído e todo o Complexo foi reedificado. São do período pombalino a fachada principal e as Galerias de fornos no interior. A Escola de Fuzileiros, ali instalada desde 1961, consagrou uma parte do edifício ao Museu do Fuzileiro, onde apresenta uma colecção de objectos sobre a História e a evolução do Corpo de Fuzileiros em Portugal.

Gil Vicente
Nas obras do mestre Gil Vicente, aparecem pelo menos cerca de 6 referências ao Barreiro.
Um auto do mestre Gil Vicente em “Auto da Barca do Inferno”
Hou lá hou demo barqueiro,
sabeis vós no que me fundo?
Quero lá tornar ao mundo,
e trazer o meu dinheiro,
qu´ aquel ´outro marinheiro,
porque me vê vir sem nada,
dá-me tanta borregada (pancada)
como lá do Barreiro.

No dia 16 de Janeiro de 1521, D. Manuel I concedeu à Vila Nova do Barreiro a Carta de Foral do Barreiro. Eis alguns excertos desta carta que fez do Barreiro vila, separando-a do alfoz de Alhos Vedros:

Carta da vila do Barreiro

“Dom Manuel”
A quantos esta nossa carta virem, fazemos saber que, esguardando nós como o lugar do Barreiro […] é um dos mais principais assim em povo, como noutras coisas […]
Estando e sabendo como por estar alongado da Vila de Alhos Vedros de cuja jurisdição é, as pessoas que nele moram não podem ir requerer sua justiça […], sem nisso levarem muito trabalho e fadiga e às vezes a deixam antes perder;
[…]
O que faria se fosse vila e tivesse seus oficiais e justiças, naturalmente segundo costume das vilas de nosso Reino e senhorio; E fosse fora da sujeição da dita vila de Alhos Vedros.
[…] Nós de nosso próprio moto certa ciência e poder absoluto, fazemos o dito lugar do Barreiro Vila e queremos que daqui em diante se chame Vila Nova do Barreiro.
E a tiramos e desmembramos do termo da dita Vila de Alhos Vedros e lhe damos por termo: Assim como vai o dito caminho e das ditas casas, assim como vai o caminho entestar na marinha de João Rodrigues, ficando a dita marinha e os moinhos de Gaspar Correia dentro no termo da dita Vila Nova do Barreiro. E havemos por bem que possam daqui em diante fazer seus oficiais e jurisdições deles na maneira que o fazem as outras semelhantes vilas de nosso Reino”.

Século XIX e o início da industrialização até ao século XX

Nas duas margens dos esteiros funcionavam moinhos de maré que fabricavam a farinha para os biscoitos. os celeiros, fornos e moinhos subsistiram até ao século XIX. O concelho do Barreiro, ao ser extinto o de Alhos Vedros a 24 de Outubro de 1855, passou a integrar na sua área as freguesias de Palhais e de Lavradio.

O desenvolvimento do Barreiro teve início em 1861, com a exploração das linhas férreas até Vendas Novas (57 km) e até Setúbal (13 km). A sua expansão deve-a, contudo, a partir de 1906, com a adjudicação a um grupo de industriais do Caminho de Ferro, Sul-e-Sueste, inicialmente entre o Barreiro, e Vendas Novas. Com o surgimento deste meio de transporte, este haveria de despoletar um processo histórico, que viria a ser determinante, não só para o Concelho, como para o país. A implementação de industrias pela Companhia União Fabril (CUF), desde 1898 dirigida pelo dinâmico e empreendedor empresário que foi Alfredo da Silva.

Desde então o Barreiro tornar-se-ia uma “moderna vila industrial e operária”, transformando por completo o antigo aspecto da vila, tanto social, económica, como urbanisticamente, o Barreiro transfigurava-se. A malha urbana cresceria além dos limites do próprio concelho, até à vizinha Moita. Os vestígios deste passado são ainda hoje uma marca da cidade, através das Oficinas da CP, dos Bairros Operários, e em especial do presente Parque Empresarial do Barreiro – Baía do Tejo – (ex-Complexo Industrial da Quimigal no Barreiro, antiga CUF). Conhecido o seu desenvolvimento industrial através da CUF é de realçar toda as outras industrias que existiram antes e durante o aparecimento desta grande empresa,trouxe muita população nova do resto do país e mesmo da Europa para aqui trabalhar, onde muitas dessas pessoas efectivamente acabaram por assentar, constituir família e fazer desta terra a sua nova casa, onde os seus filhos iriam ser os futuros Barreirenses do pós 25 de Abril. O Barreiro ascendeu ao título de cidade em 28 de Junho de 1984.

Fonte: Sítio Internet Wikipédia, a enciclopédia livre