Barreiro do Século Passado VII

NOS ANOS 60 A GUERRA COLONIAL MATA NOS COMBOIOS EM PORTUGAL

Entretanto a actividade e a capacidade de organização e luta, evidenciada durante a década de 50 e no início dos anos 60, despertaran sanha repressiva do regime, e, por duas vezes no espaço de poucos meses, os “cães de guarda” de Salazar, efectuaram dezenas de prisões de activistas ferroviários, na tentativa de decapitar a iniciativa.
Em 1963, em dois processos repetem-se os quesitos acusatórios de, “actividades subversivas contra a segurança do Estado” e de, “militância no clandestino Partido Comunista Português, que visa derrubar o Governo por meios violentos”. Dezenas de condenações no famigerado Tribunal Plenário, com acusadores e juizes-fantoches, depois de torturas e sevícias nos interrogatórios da PIDE na António Maria Cardoso e no reduto Norte de Caxias, arrancando confirmações muitas vezes para fugir aos tormentos. As condenações marcam profundamente os presos, mas a luta prossegue nos locais de trabalho, onde outras sementes germinam tomando o lugar dos caídos.
A não concessão de subsídios estatais previstos na negociação do ACT em 1961, conduzem a sempre deficitária CP a uma situação insustentável, levando Mário de Figueiredo, notório situacionista, a demitir-se. A Companhia encerra ramais, em prejuízo das populações, e não faz investimentos na rede ferroviária nacional, muitíssimo degradada, “porque o material rolante ou é velho ou circula com avarias, porque se admitem excessos de lotação em carruagens sem resistência, porque a CP só pensa no lucro e não na segurança dos passageiros” (Avante – Agosto de 1964).
Em poucos dias desse ano, sucederam-se três graves desastres: Custóias (linha da Póvoa) – 90 mortos; Araújo (linha de Guimarães) – 1 ferido; Vale de Santarém – 42 feridos. Por essa razão concluía acutilante o referido jornal, … “os 90 mortos mostram que a Guerra Colonial também mata em Portugal (…) com o desvio, a partir de 1961, dos principais recursos nacionais para essa criminosa guerra”.
Em Janeiro de 1966, voltava o assunto à baila, com nova denuncia e mais três desastres graves, com dezenas de mortes, levando à seguinte exigência expressa: … “A Direcção da CP para o banco dos réus !“. “O estado de desgaste e desprezo em que e encontra material circulante e as vias férreas (…) o excesso de lotação (…) pagamento de salários miseráveis e a redução de pessoal (…) os subsídios do governo que vão parar aos bolsos dos directores da Companhia”, eram as razões de tal calamidade.
A luta da gente das ferrovias adquire uma dimensão nacional quando, no ano de 1966, concertam uma reclamação conjunta de um novo Acordo Colectivo, contemplando a actualização de salários. Dando corpo ao descontentamento, nas Oficinas e nos Centros Ferroviários do País constituem-se Comissões de Unidade que pressionam os Sindicatos Corporativos (Norte, Centro e Sul), a Gerência e os Ministérios da Tutela.
No final do ano de 68, um forte impulso foi dado à luta, com a entrega ao ministro das Corporações de um abaixo-assinado, a nível nacional, com cerca de 11 mil assinaturas, apresentando 33 reivindicações, entre as quais a fundamental é o aumento mensal de 1000 escudos. Reforçando o combate à volta das suas exigências, que incluem, também, horário de trabalho de 8 horas em todas as estações, apeadeiros e passagens de nivel; horas extra pagas com 5%; subsídio de férias equivalente a um mês de vencimento; assistência médica e medicamentosa em conformidade com as Caixas de Previdência, etc., os homens e as mulheres dos Caminhos-de-Ferro, aguardando há mais de três anos um novo Acordo Colectivo de Trabalho, pressionam os Sindicatos, os responsáveis locais, a gerência da CP, os ministérios. Entretanto discutem, a nível nacional, em clima de unidade, o avanço para formas superiores de luta, obrigando a gerência e o governo a satisfazer as suas reivindicações.
Tal intento concretizar-se-á no ano seguinte, 1969, com uma formidável luta a nível nacional, a célebre “greve de luto”: Em Outubro/Novembro, milhares de funcionários da CP usam uma braçadeira negra como protesto contra a miséria a que a classe está votada e contra o desprezo dos responsáveis.
Estes são acontecimentos memoráveis, quando já não vêm longe os dias magníficos de Abril de 1974, em que a revolta dos militares e a revolução do povo afastarão o poder despótico e corrupto desde sempre à frente da companhia transportadora nacional dos caminhos de ferro.

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″