Barreiro do Século Passado VI

OS ANOS DO PÓS-GUERRA E A DÉCADA DE 50

Certamente foi lento e doloroso o processo de transformação da orientação anarco-sindicalista, profundamente arreigada nos ferroviários, que concebia a luta económica e sindical como motor da transformação política.
Nas condições de Sindicatos Corporativos como meras extensões administrativas do Ministério das Corporações, peças importantes da estrutura fascista que doutrinava a perfeita conciliação de interesses entre patrões e assalariados, a primeira e legítima atitude a seguir a 1934 foi o afastamento. Foi essa a orientação durante muitos anos, até a Única força política organizada nas duras condições de clandestinidade, o PCP, partido político marxista-leninista, chamar a atenção para a possibilidade de se aproveitar as estruturas sindicais do Estado Novo para batalhar pelas reivindicações dos trabalhadores quotizados obrigatoriamente, mas sem direito a voto, segundo a lei do governo de Salazar.
Os comunistas concebem os sindicatos como organizações importantes na defesa dos interesses imediatos/mediatos dos obreiros; mas não os confundem com a luta política organizada, reservada à vanguarda – o Partido – a quem cabe o papel fundamental na luta pela transformação da sociedade.
Nos anos imediatos à guerra surgiram os primeiros sinais de crise no seio dos sindicatos ferroviários corporativos. As pressões infrutíferas para a publicação de um Acordo Colectivo de Trabalho, prometido desde 1936 (!), dificuldades na homologação de direcções, mesmo com gente de confiança, jornais sindicais a desaparecer, sinais de desânimo e descrença, dirigentes que ameaçam demitir-se !…
Ficava longe a antiga. Fé e ânimo corporativista dos anos 30!
Na década de 50, os ferroviários do Sul estão cientes da justeza da orientação comunista, já então com influência decisiva na classe e começam uma nova fase da sua luta. Assim, em Junho de 1950, organizam uma numerosa concentração no Sindicato, em apoio à comissão representativa que foi fazer a entrega de um caderno reivindicativo.
Em 1952, operários das oficinas entregam no Sindicato uma carta de protesto com 135 assinaturas, em apoio da comissão indigitada para defender a melhoria das condições de trabalho, muito degradadas.
Em Outubro de l953, 75 operários da CP-Barreiro concentram-se no Sindicato exigindo aumento de salários. Perante a inércia dos dirigentes, recolhem assinaturas de apoio a uma exposição enviada ao ministro dos Transportes e dirigida também a Salazar. Nesse ano haverá eleições para a Assembleia Nacional, em Novembro, e o governo fica muito preocupado com a informação (via PIDE) de que o protesto poderia redundar numa tentativa de greve!
Nos finais do ano de 1954, pela primeira vez é feita a unificação da luta nos três grandes centros ferroviários, Barreiro, Sta. Apolónia e Campanhã, na elaboração de um caderno de reivindicações, enviado ao ministro das Corporações.
Em Outubro de 1955, trabalhadores da CP, no Barreiro, enviam ao Sindicato dos Ferroviários do Sul, um protesto com mais de 600 assinaturas, contra as condições estabelecidas no novo Acordo Colectivo de Trabalho (ACT) finalmente publicado em Julho de 1955 que deixa a maioria dos ferroviários descontentes.
O governo argumenta com a situação económica difícil da CP, reestruturada em 1946 com a inclusão de todas as companhias existentes. São os trabalhadores a suportar a crise, não vendo as condições de trabalho actualizadas, o que não era verdade para os administradores sempre bem pagos e cheios de mordomias.
Desde 1949 os sindicatos estavam agrupados numa estrutura federativa a União dos Sindicatos Ferroviários surgida para negociar as Convenções Colectivas, mas a forma como assinou de cruz o ACT de 1955 e, pior ainda, a condução da negociação da Revisão do Acordo de 1961, rapidamente a desacreditou, tal como desacreditados estavam os sindicalistas corporativos.
No dia de 10 de Janeiro de 1956, a luta endurece. Às 9.00 horas da manhã, fria, cinzenta, no país da tristeza, centenas de produtores resolvem animá-la, paralisando o trabalho e concentrando-se junto à Direcção das Oficinas do Barreiro, em protesto contra as condições de trabalho do novo Contrato que o Ministério das Corporações impôs. Chamadas a GNR e a PIDE, os trabalhadores ferroviários não se intimidam e insistem para uma indigitada Comissão Representativa ser recebida pelos responsáveis, a quem apresentam as reivindicações. Bem se pode dizer deste acontecimento que, após anos difíceis, os homens dos Caminhos de Ferro tinham recuperado a sua organização e capacidade de luta.
No dia 31 de Maio de 1958, estava prevista a vinda do candidato às eleições presidenciais, Dr. Arlindo Vicente, impedido em Setúbal de rumar ao Barreiro. Efectuou-se uma grande manifestação popular na avenida da Bélgica e na rua dos Combatentes, nela se incorporando muitos ferroviários não acatando a “ordem especial” para fazerem serão obrigatório, sob a ameaça de processo disciplinar. Em consequência destes acontecimentos foram presos no dia seguinte, Germano Madeira e Manuel Cabanas, funcionários da CP.
1958 é um ano de grande animação política em Portugal, e particularmente nos meios ferroviários, de onde chovem petições, exposições, memorandos, cartas e telegramas, dirigidos ao Ministério das Corporações e à Presidência do Conselho, falando do pesado mal estar, da descrença, da profunda revolta e indignação de muitos milhares de membros da família ferroviária, chamando ao ACT desacordo colectivo de trabalho e dizendo que… “os sindicatos nada fazem por não terem, de há muito, direcções que exprimam o sentir e a vontade da classe”.
Em Janeiro de 1959, efectua-se uma concentração de gente do Caminho de Ferro, junto do Sindicato, a funcionar desde sempre na “Casa dos Ferroviários”, na rua Almirante Reis, para entregar algumas centenas de assinaturas solicitando a convocação de uma Assembleia Geral, onde se deverá discutir o aumento dos salários.
No ano de 1961, em Fevereiro, e novamente em Março, homens das ferrovias concentram-se por aumento de salários e melhoria das condições de trabalho.
Nesse ano, pela primeira vez, desde há muito, é feito um investimento significativo na aquisição dos novos barcos, “Algarve” e “Estremadura”, construídos nos estaleiros de Viana do Castelo, passando a fazer a travessia para Lisboa em 30 minutos e substituindo as velhas unidades com mais de 50 anos.
Ainda em 1961 é aprovada a revisão do ACT, que suscita de imediato descontentamentos, remanescentes da primeira aprovação em 1955.

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″

PARTE 7