Barreiro do Século Passado V

A GREVE DE 1943

É um ambiente de cortar à faca aquele que os manifestantes vão encontrar na manhã de 27 de Julho de 1943, quando aos gritos de … : “Pára! Pára! Pára!”, irrompem nas Oficinas pelo lado da Rotunda, vindos do Barreiro-A. São centenas de homens e mulheres, operários da CUF, corticeiros, trabalhadores da construção civil, domésticas, até alguns comerciantes, que antes marcharam pelas ruas da vila, gritando, “Temos fome!“, “Queremos trabalho e pão!“, depois de na Companhia União Fabril se ter iniciado a “Paralisação de Braços Caídos”. Alguns profissionais choram em frente das máquinas-ferramenta, com os contra-mestres a gritarem-lhes aos ouvidos : “Se páras vais p’rá rua! Ordens do Director!“- até que alguém corta a energia. Nessa manhã ninguém volta a arrancar, mas na parte da tarde toda a Oficina volta a funcionar, os homens do caminho de ferro não vieram para a rua, onde as forças repressivas, nomeadamente uma recém-chegada Companhia de Cavalaria da GNR, perseguem, espancam prendem centenas de Barreirenses em manifestação.
– O Torrão fugiu de madrugada! A “Ramona” anda a caçar de porta em porta!
Valente apareceu espavorido, contrariando as regras de segurança, naquele seu jeito radical de interpretar as situações:
– Calma, camarada, calma! Já contávamos com a repressão! Não esperávamos era um movimento tão espectacular! Tem sido fantástica a adesão da população, as ruas cheias de gente, as fábricas paradas!… Pena o Caminho de Ferro…!
É verdade, estive lá ontem á tarde, foram cenas pungentes! As mulheres com os filhos ao colo a gritarem: “Párem ! Párem !” – relatava Teodoro, entristecido.
– Não temos lá ninguém que seja capaz de dar a volta à situação?…
– Interrogava-se o José Maria, sabendo bem quão fraca era a organização do Partido nas oficinas da CP, após anos e anos de repressão e do colapso da influência anarco-sindicalista.

Na tarde do dia 27 de Julho, na hora em que a sirene chamava ao regresso disciplinado ao trabalho nas oficinas e departamentos, uma multidão, sobretudo composta por mulheres, juntou-se frente à entrada principal. Muitas vinham com os filhos ganapos agarrados às saias, ou ainda bebés ao colo, respondendo ao apelo lançado ao fim da manhã, pelo “Comité de Greve”:
As oficinas da CP devem parar!
Depois do relativo insucesso da parte da manhã, quando a invasão do magote de gente vinda do Barreiro-A tinha conduzido ao corte da energia e à paralisação forçada, havia uma grande expectativa sobre o comportamento dos ferroviários.
Uma indescritível tensão acompanhava os pequenos grupos subindo as escadas, silenciosos, de cabeça baixa, perante um silêncio aterrador de centenas de espectadores interessados. Até que um grito de mulher, desolado, sofrido, quebrou a angústia:
– Não vão trabalhar, camaradas! Pelo amor dos nossos filhos, não trabalhem camaradas!
Outras vozes roucas, gestos de violência contida, crianças levantadas na cara dos relapsos, um desespero quase religioso das corticeiras que tinham paralisado mesmo ali ao lado, a fábrica Herold.
– Não traiam a nossa luta, camaradas!

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″

PARTE 6