Barreiro do Século Passado IV

A REPRESSÃO NA DITADURA

Logo após a publicação do Decreto-Lei 23050, começaram a organizar-se os sindicatos corporativos. Em Junho de 1934 será constituída a comissão organizadora e em Novembro de 1935, é formalmente “inaugurado” o “novo” Sindicato Nacional dos Ferroviários do Sul. O Estado Novo construía assim o seu edificio corporativo/opressivo, um dos pilares do regime fascista em ascensão, sem a participação dos trabalhadores e entregue a situacionistas e lacaios.
A nível local o processo foi dirigido por Mateus Gregório da Cruz, o famigerado “Marquês da Bacalhoa”, antigo sidonista que, em 1930, fora um dos fundadores da comissão concelhia da União Nacional e em 1932 é seu presidente (também da Junta da Freguesia do Barreiro).
Os corporativistas, recebendo as “incumbências” directamente do subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social, Pedro Teotónio Pereira, conseguem apropriar-se da “Casa dos Ferroviários”, a única sede de “luxo” que o associativismo ferroviário livre tinha conseguido construir (ainda com dívidas por pagar) e que mercê de um estratagema jurídico conseguira escapar até ai ao esbulho governamental.
O Barreiro continuava a crescer desde o início do século XX, como mostram os censos (12203 residentes em 1911; 15009 em 1920; 21042 em 1930; 26104 em 1940; 29719 em 1950). Tal como aumentava a população activa na indústria, mormente por influência da criação e expansão da Companhia União Fabril a partir de 1908 (44% em 1911, 57% em 1950).
O crescimento da Indústria Química e a concentração operária consequente, simultaneamente com a penetração das ideias da Revolução Proletária e a crescente influência e organização do PCP, ao mesmo tempo que se refina o aparelho Repressivo do regime salazarista, formam um triângulo particularmente explosivo pontuando a vida política do concelho a partir da década de 30.
No dia 27 de Fevereiro de 1935, após sabotagem da energia eléctrica, deixando parte da vila às escuras, uma bandeira vermelha foi colocada na chaminé alta, de 40 metros, das Oficinas dos Caminhos de Ferro, por lá ficando uns dias volteando ao vento, símbolo da esperança que animava a nova geração. No dia seguinte foram efectuadas dezenas de prisões, com interrogatórios e espancamentos no posto da polícia. Familiares e companheiros revoltados concentram-se então em frente ao “Olho de Boi”, na Praça da República, exigindo a sua libertação e sendo dispersos a tiro, com dois feridos graves.
Em Maio de1936 a Policia de Vigilância Defesa Estado (PVDE), assalta as Oficinas para efectuar prisões. Os trabalhadores ferroviários paralisam o trabalho e perseguem os agentes até ao cais fluvial, apedrejando o “Évora” onde estes embarcam precipitadamente com a única prisão concretizada, respondendo a tiro às pedradas enfurecidas arremessadas da margem e fazendo cinco feridos. Nessa tarde os operários das oficinas e vias não voltaram a pegar no trabalho!
Nas condições da ditadura, a hierarquização rígida, o controlo opressivo e uma repressão constante, sobretudo nas Oficinas, sufocam os trabalhadores, espartilhados num sistema interno de vigilâncias e denúncias, patrocinado ao longo dos anos por sucessivos chefes todo-poderosos, autênticos títeres do regime (Rui Ulrich, Fernando de Sousa, Raul Esteves, Mendia, Bruschi, Garcia, Adragão, etc.).
Nos anos da guerra de Espanha, as forças da situação estiveram particularmente activas entre os ferroviários, recrutando para as “lanças” da Legião Portuguesa, denunciando e perseguindo os “subversivos”, que incluíam os republicanos do reviralho, deificando o ferroviário n°1: “Salazar manda os ferroviários obedecem!”.
Mas as contradições fundamentais o Estado Novo não podia ou não queria resolver. Os ferroviários não eram aumentados desde 1927 (alguns desde 1924!) e a CP ainda cerceara regalias em termos de licenças anuais (1940) e retirara os passes aos reformados (1939), provocando grande descontentamento e a diminuição real do nível de vida até ao limiar da pobreza. Tal, era motivo de protestos ordeiros por parte dos sindicatos corporativos, atacando a direcção da CP e ilibando o regime e o seu chefe, motivo de confiança e fé inabaláveis.
Em 1942/43, numa altura de grandes protestos contra a motivada pelo racionamento de géneros alimentares, finalmente Salazar resolve despachar sobre os salários mínimos dos homens das ferrovias, livrando muitos, momentaneamente da miséria .

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″

PARTE 5