Barreiro do Século Passado III

DO GOLPE MILITAR À GREVE GERAL REVOLUCIONÁRIA

Quando surge o 28 de Maio de 1926, o líder dos ferroviários do Barreiro, Miguel Correia, que já estivera quatro vezes preso nas cadeias da República, negociou um compromisso com os revoltosos, prometendo-lhes a paralisação do tráfego normal e todas as facilidades para o transporte de tropas. Esta colaboração era prestada mediante uma lista de reclamações apresentada aos chefes de Lisboa (comandantes Mendes Cabeçadas e Gama Ochoa).
Terão os sindicalistas libertários pensado que a situação política era tão má que para pior já não era possível mudar? Note-se, a CGT (tal como o PCP) rapidamente se tinha declarado em oposição ao golpe.
Esperanças vãs, desilusão amarga, terão sido os sentimentos dos trabalhadores das ferrovias em relação à ditadura militar, quando o “Sul e Sueste” ficou sujeito a censura prévia (como todos os jornais sindicais) e Miguel Correia foi novamente preso em Setembro de 1926 e deportado para Cabo Verde (e mais tarde para Lourenço Marques).
Em Maio de 1927, foi assinado o arrendamento das linhas do Sul e Sueste (CFE) à Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses (CP), correspondendo na prática à sua privatização, arrostando graves consequências na diminuição dos postos de trabalho e de outras regalias.
Negócio da China”, foi como lhe chamaram os jornais sindicais. Concorreram também outros grupos económicos, como Alfredo da Silva, Banco Burnay, etc., interessados naturalmente num inverosímil contrato que deixava os encargos para o Estado (défices, reformas do pessoal, obras em pontes, material circulante, etc.,).
Os homens dos caminhos de ferro do Sul lutam então bravamente contra as reformas compulsivas, as “dispensas” e os despedimentos, fazendo greve, ferozmente reprimida. Muitos dos seus dirigentes sindicais são presos, juntando-se a Miguel Correia.
A “privatização” das linhas do Estado, assumiu a feição duma “vingança política”, acrescida dos castigos aplicados a propósito do movimento insurreccional de Fevereiro de 1927. Este golpe começou no Porto a 3 de Fevereiro e terminaria sufocado em Lisboa a 9 do mesmo mês, sendo a primeira grande tentativa contra a ditadura e terá tido como motivação próxima o chamado “arrendamento das linhas do Estado”, já então em adiantado estado de preparação. Teve alguma expressão no Barreiro, sobretudo nos meios republicanos, cujo objectivo era ganhar para a causa o Quartel dos Fuzileiros. Uma concentração de apoiantes na praia do Mexilhoeiro, foi bombardeada a partir de um vaso de guerra no Tejo, na madrugada do dia 7 de Fevereiro, como já foi contado anteriormente.
Os ferroviários do Sul e Sueste iniciaram neste contexto uma greve no dia 4, todavia sem grande participação e aqueles que entraram no movimento foram “exemplarmente” castigados: O Sindicato foi encerrado (reabriria meses depois), e o que restava da Federação Ferroviária, a nível nacional (de tendência anarco-sindicalista), passou à clandestinidade, tendo os seus lideres, Manuel Rijo e Mário Castelhano sido presos e mais tarde deportados para o Tarrafal, onde o segundo viria a falecer, vítima das condições de detenção.
No principio dos anos 30 o sindicalismo ferroviário começou a ser dominado pelos comunistas que, pouco a pouco, tinham destronado os libertários. Em 1931, decorrente da repressão das revoltas contra a ditadura, na primavera desse ano, foram encerradas as principais delegações do Sindicato do Sul e Sueste (Beja, Évora, Funcheira, Messines e Faro), sendo preso o líder do Sindicato de Lisboa, o comunista Manuel Vieira Tomé. O jornal o “Ferroviário”, que dirigia, sujeito a férrea censura, não pôde dar a notícia da sua prisão! Seria morto pela PVDE no Aljube em circunstâncias nunca esclarecidas.
No início de 1933 , os comunistas conseguem conquistar a direcção do Sindicato do Sul e Sueste, mas o último e rude golpe na organização e no generoso espírito de luta da classe ferroviária manifestado durante décadas na defesa de direitos e melhores condições de vida, seria dado pouco depois com a publicação da Constituição de 1933, que proibia a greve, e com a promulgação do famigerado Estatuto do Trabalho Nacional. O governo de Salazar, chegado á Presidência do Conselho em Julho de 1932, ilegalizou o Sindicato dos Ferroviários e proibiu o seu órgão, o “Sul e Sueste”, ainda antes de, em 1 de Janeiro de 1934, publicar o decreto proibindo e dissolvendo os sindicatos livres.
Mas os trabalhadores das ferrovias, como os restantes trabalhadores portugueses, não se entregaram nos braços de Salazar. Foram à luta, o que para a corrente anarco-sindicalista em perda de influência, representou um desespero de causa. No Barreiro, foi possível, nos princípios de Janeiro de 1934 discutir e acertar acção entre a facção tradicionalmente maioritária nos ferroviários e a tendência comunista, que desde os finais da década de 20 vinha ganhando força.
No dia 18 de Janeiro de 1934, um numeroso grupo de antifascistas, em boa parte trabalhadores ferroviários, aguardou ao princípio da madrugada, no eucaliptal frente à Estação do Lavradio, a indicação para pôr em marcha uma grande acção insurreccional, incluindo o assalto ao posto da GNR. A movimentação local, integrada na Greve Geral Revolucionária organizada a nível nacional, acabou por ser desmobilizada por falta de confirmação e depois de acalorada discussão e votação dos presentes. Excepto na Marinha Grande, onde a vila foi ocupada pelos trabalhadores em luta, a acção foi abortada, constituindo um grande revés para o movimento operário português. Pesada derrota, particularmente para a corrente sindicalista-anarquista, cujos dirigentes foram ferozmente perseguidos, presos e deportados, nunca mais conseguindo organizar-se nas condições repressivas da ditadura salazarista. Destes factos naturalmente se ressentirão os ferroviários do Barreiro durante muitos e muitos anos.

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″

PARTE 4