Barreiro do Século Passado II

DA 1ª. REPÚBLICA AO GOLPE MILITAR DE 1926

A primeira grande luta dos ferroviários do Sul foi travada em 1911, durante 6 dias, de 11 a 16 de Janeiro, integrada numa greve nacional conseguiu imobilizar quase todos os comboios do País, tendo obtido aumentos salariais, 20 dias de licença anual com vencimento, passes gratuitos, etc.
Corresponde a uma forma superior de organização, resultado do grande impulso no associativismo pós-república, imprescindível para se conseguir a unidade e a coragem necessárias para exigir do poder republicano recém-constituído, que, apesar de contradições internas, se mostraria sempre avesso às reivindicações operárias. Nessa altura também conseguiram a demissão do presidente dos Caminhos-de-Ferro do Estado (CFE), Eng.º Fernando de Sousa, um monárquico acusado de reaccionarismo e autoritarismo.
Para responder às novas exigências, a Associação dos Metalúrgicos foi extinta em 1914, para dar lugar à Associação de Classe dos Ferroviários do Sul e Sueste – transformada depois em Sindicato em 1921 (Sindicato do Pessoal dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste).
Referência para o facto de ainda, em 1910, ter sido criada a Associação de Classe dos Descarregadores do Barreiro, com cerca de 200 associados, uma camada proletária também muito unida e aguerrida, intimamente ligada aos ferroviários, pois os mesteres completavam-se. Participaram sempre nas lutas mais importantes.
Não restam dúvidas os anos de ouro da luta dos ferroviários do Barreiro (muitas vezes englobada num âmbito nacional) correspondem acentuação da corrente sindicalista revolucionária (ou anarco-sindicalista) na Associação de Classe e depois no sindicato.
A partir de 1917, foi sobretudo dirigida por Miguel Correia e António José Piloto, que promoverão em 1919 a edição do “Sul e Sueste”, órgão de informação e mobilização da classe.
Assim organizados, os homens dos Caminhos-de-ferro do Estado, participam numa grandiosa greve, em Novembro de 1918 contra a carestia da vida e por melhores salários. Luta dura e prolongada, com sabotagens, repressão feroz, prisões despedimentos, espancamentos, enfurecendo os trabalhadores e desacreditando cada vez mais os partidos do poder republicano. Esta viragem gradual contra a “política democrática”, iniciara-se nos graves incidentes de 1914 durante uma greve tumultuosa na CP, ferozmente reprimida em Lisboa. Lembrar que, em 1910 os homens da ferrovia tinham uma das profissões mais republicanizadas.
No ano seguinte, em 1919, haverá nova greve pela readmissão dos camaradas despedidos cm Novembro de 18 durou 12 dias e acabou vitoriosa! Nem sempre, contudo, assim aconteceu. Em 1922 os homens dos caminhos de ferro, organizados nos três pólos sindicais de Lisboa, Porto e Barreiro (União Ferroviária do Porto, SPCFP de Lisboa e Sindicato do Sul e Sueste, no Barreiro), encetaram corajosamente uma greve nacional pela desmilitarização da empresa, sujeita a requisíçao militar quando se travava alguma luta, nomeadamente com os soldados do Batalhão do Sapadores dos Caminhos dos Ferro, comandados pelo famigerado tenente-coronel Raul Esteves, a substituírem os maquinistas na condução das locomotivas . Aquele oficial, tido por monárquico e futuro golpista do 28 de Maio de 1926, já em 1919 andara um mês nas linhas da CP com a sua unidade e o célebre “vagão fantasma” ( vagão que seguia à frente do comboio com grevistas escoltados para garantir não haver sabotagens ).
Apesar de durar 70 dias ( ! ) a greve não teve êxito, foram despedidos como represália os elementos mais “rebeldes” e presos os líderes sindicais, incluindo o telegrafista Miguel Correia, dirigente da CGT anarquista e “o maior agitador ferroviário que houve em Portugal”, segundo alguns historiadores.
Dando uma imagem nítida do descrédito do poder republicano junto dos ferroviários (e não só) o “Sul e Sueste” 1921, dizia: “Em dez meses, em pleno regime republicano, tem havido mais opressão e tirania do que em dezenas de anos de monarquia”. Passe o exagero da afirmação, porque no antigo regime não havia a dinâmica de luta do tempo em questão, talvez assim se compreenda a razão pela qual os ferroviários fizeram greve local de apoio ao golpe de Estado de 28 de Maio de 1920.
Retomemos o ano de 1921, e assinalemos outro facto notável, informado pelo “Sul e Sueste”, sobre a prisão de dois sindicalistas (Leopoldo Calapez e Manuel D. Júnior) por possuírem exemplares do “Bandeira Vermelha”, órgão da Federação Maximalista Portuguesa, de que era director o ferroviário e escritor Manuel Ribeiro, e uma das raízes da fundação do Partido Comunista Português, nesse mesmo ano. Como noutros sectores, as novas ideias da Revolução Soviética de 1917 também aqui iam chegando.
Em 1922 os trabalhadores do CFE estão em festa com a inauguração da Casa dos Ferroviários, local de instrução e convívio onde se juntam as famílias para assistirem a concertos, palestras, evocações. Passa a ser também a sede do Sindicato criado no ano transacto, chegando aos nossos dias infelizmente muito degradada.
A última greve do Sul e Sueste antes do golpe militar, teve lugar em 1923, durando três dias e novamente com violências e acções de sabotagem como resposta da parte dos trabalhadores.

Fonte: Texto extraído do livro de TEIXEIRA, Armando Sousa. “A Indústria e a Luta em Desenvolvimento – Barreiro, Uma História de Trabalho Resistência e Luta (1963-1969) Parte IV. Prefácio por Lélio Quaresma Lobo. ISBN: 972-550-308-2″

PARTE 3